Floripa, inspiração

Em setembro de 2013 eu fui pela primeira vez para a capital catarinense. Sim, parece bobagem escrever sobre uma viagem que tanta gente já fez (falo daqueles gaúchos que veraneiam todos os anos ou já foram muitas vezes na vida no litoral paradisíaco do estado vizinho), mas eu fiquei realmente encantada com a ilha.

E quem não ficaria? Isso que o feriadão mais importante para o povo gaúcho segundo a valorosa Zero Hora (SQN) foi um final de semana chuvoso em todo os sul do país. Nem a chuva torrencial tirou a beleza da ilha. Nem os engarrafamentos mil tiraram os mistérios da ilha. Percorri toda ela de carro com um casal de amigos e o namorado. Visitei todos os points badalados de Floripa e fiquei com aquele gostinho de quero mais.

Quero no verão, quero no inverno, quero aprender a nadar para aprender a surfar. Sim, eu cogitei até essa possibilidade, tamanha admiração que garrei desse povo que pega onda. Claro que essa vontade deu e passou, mas cada vez que vejo o mar eu penso que seria uma possibilidade bastante interessante (a gordinha aqui já aprendeu a nadar, mais ou menos, mas a coragem de subir numa prancha ainda está bem longe de se materializar). Sobre aprender a nadar aos 29 anos, sobre essa vontade repentina e maluca e sobre o apreço ao esporte e seus praticantes eu posso escrever em outra oportunidade, se for vontade de vocês, claro.

Floripa me deixou com vontade de largar tudo e morar lá. Viver uma vida simples, na praia, sem muita preocupação. Por vários motivos, dentre eles o fato de ser uma cidade grande, com todos os confortos de uma vida moderna, mas com a possibilidade de viver no mato, na beira da praia, vivendo devagar, em conexão com a natureza. Essa possibilidade não só me encantou, mas me transformou de tal forma que agradeço todos os dias por ter ido pra lá no momento que fui. Estava precisando. E esse tipo de viagem, que te transforma, que te faz ver o outro como possibilidade e não com estranhamento puro e simples (lembra dos surfistas?) é a mais gostosa de se fazer. E como disse Olivia Maia em uma de suas newsletters (a propósito, já assinou a newsletter dela, é incrível, assina logo!) a viagem e a literatura tem muito em comum. Em ambas eu posso conhecer outros mundos, outras formas de viver (n)o mundo e criar empatia com elas. Lindo isso, né? Eu concordo plenamente.

Uma pena não ter levado máquina fotográfica e depender das fotos podrinhas do celular. Mas ficou registrado na memória.

Vista da ponte Hercilio Luz

Vista do Mirante do Morro da Cruz

Surfista de pedra

 

Veja mais fotos no álbum do Flickr.

Adorei conhecer as praias, tomar banho de mar em um dos pouquíssimos momentos em que a chuva deu sossego, admirar a paisagem magnífica da ilha, visitar prainhas de pescadores e praias super badaladas pela juventude bonita e festeira, adorei conhecer Santo Antônio de Lisboa, um dos pontos altos da viagem, sem dúvida. Adorei a aventura, a loucura da cidade, adorei a comida. Adorei tanta coisa, adorei tudo que vi e vivi por lá. Espero voltar muitas outras vezes e conhecer amigos virtuais que moram por lá.

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Neurose de blogueira e viajante

Andei viajando. Vagando pela América Latina.

Quanta pretensão!

Vagando por dois países da América Latina.

Acontece que Chile e Peru foram duas viagens maravilhosas. De verdade. Não há dúvidas que tenho muita vontade de compartilhar com os parcos leitores desse blog e, quem sabe, inspirar e ajudar alguns outros viajantes por terras latinas a conhecer estes países.

No entanto minha neurose é tamanha que não sei se consigo escrever sobre o Peru (viagem mais recente) antes de falar sobre o Chile (viagem que fiz há mias tempo e não escrevi uma linha sequer sobre isso no blog – foi em tempos de total abandono da blogosfera). Daí que preciso de ajuda. Para superar a neurose e para decidir: escrevo em ordem, primeiro sobre o Chile, e depois sobre o Peru? Chuto o pau da barraca e escrevo sobre a viagem mais recente primeiro ou ainda escrevo concomitantemente sobre as duas viagens?

Comentários disponíveis para possíveis soluções ao meu dilema e para sugestões de terapias para superar essa e outras mil neuroses que convivo todos os dias.

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Estante nova no pedaço

Não consigo lembrar em que ano comprei minha primeira estante, daquelas bem simplesinhas, amarela, tinha até um tamanho bem bom. Por anos ela foi filha única de mãe soteira. Lembro que eu não tinha vinte anos ainda (ah, como o tempo passa). Ela era a parte mais importante do meu quarto, porque nela eu guardava as coisas mais preciosas da minha vida: meus livros. Poucos no começo, mas aumentando lentamente.

Então, dois anos atrás eu finalmente tinha meu próprio apartamento e MUITOS livros a mais. Comecei a me apossar das estantes do namorado e enchi três delas em um piscar de olhos. Acontece que mesmo essas três já não eram suficientes e as coisas começaram a ficar um pouco bagunçadas, depois muito bagunçadas. A ideia de ter um home office, com uma estante linda foi saindo da cabeça e indo para o papel. O projeto estava lá, só faltava dinheiro para colocar em prática.

No final do ano passado o passo maior foi dado e encomendamos a estante e uma mesa de trabalho, do jeitinho que eu sempre sonhei. Ela demorou para ficar pronta (mais do que o que constava no contrato, mas tudo bem), e quando ela ficou pronta nós estávamos viajando. Somente uma semana depois de voltarmos de viagem ela foi instalada. E está arrasando desde então. Foram dois meses e meio de espera desde o dia que assinamos o contrato da encomenda, mas valeu toda a espera.

Mas chega de falar sobre a estante dos sonhos, vamos ver juntos como ela ficou?

Estante em processoE eu ainda resolvi gravar um mini tour pela estante nova e postar lá no canal do blog no youtube Também renascido das cinzas. Confere aí:

Se você não estiver visualizando, assista direto no vídeo no youtube. Não esqueça de comentar :)

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Livro velho ou livro antigo?

Old Books

Old Books Por Morten Jess Nielsen

No início desse ano eu fiz uma capa para o meu Kindle a partir da capa de um livro. E ainda não sei se digo que o livro que usei é antigo ou velho. Porque as duas palavras podem parecer a mesma coisa (uma até aparece como definição da outra no dicionário), mas no fundo existe uma grande diferença.

velho | adj. | s. m. | s. m. pl.
ve·lho |é|
adjetivo
1. Avançado em idade.
2. Obsoleto.
3. Antigo.
4. Muito usado; antiquado.
substantivo masculino
5. Homem velho.
6. [Informal] Pai (ex.: Que idade tem o teu velho?).
7. [Brasil] Nome de um peixe que parece gemer quando o apanham.
velhos
substantivo masculino plural
8. [Informal] O pai e a mãe (ex.: Os meus velhos viajam imenso).
9. Aquilo que é antigo, que não constitui novidade (ex.: a autora mistura velho e novo, criando um estilo muito próprio). ? NOVO
dançar de velho
• Brigar.
• Jogar capoeira.
de velho
• [Agricultura] Em descanso (ex.: o terreno ficou de velho).
velho de guerra
• Homem experimentado, valente, perito em algum mister.
velho e relho
• Muito antigo.
“velho”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/velho [consultado em 16-11-2013].

A diferença está no uso. Se eu digo que determinado carro é velho, eu estou afirmando que ele não tem mais (ou tem muito pouco) condições de uso. Se eu digo que ele é antigo, eu estou atribuindo um valor a ele, afirmando que ele é um objeto do passado que ainda possui utilidade, seja ela a mesma que originalmente foi pensada para ele (no caso do carro, a de se locomover) ou estética, ou quem sabe ainda atribuindo uma nova função (como, por exemplo, a de objeto de coleção).

Pensando dessa forma, um livro velho seria aquele que não tem mais condições de ser lido? Nesse caso, uma grande parte das coleções de arquivos e bibliotecas de raridades espalhadas pelo mundo seria apenas uma porção de entulho que não serve para mais nada. Porém, acontece exatamente o contrário: as coleções de raridades já não podem ser manuseadas com frequência, pois podem danificar o objeto livro, mas seu conteúdo – o texto que ele contém – possui um valor inestimável para a história.

Sendo assim, um livro velho não é aquele que não possui mais condições de ser utilizado, pois, como disse anteriormente, não é seu uso que determina seu valor, mas o que ele contém: o texto. Esse  seria, portanto, um livro antigo. Então, o que é um livro velho? Essa pergunta é bem espinhosa. Ao meu ver não tem uma única resposta correta. Entretanto, acredito que um livro velho é aquele que já foi publicado há muito tempo, que está desgastado pelo uso  e que, no entanto, possui uma quantidade razoável de novas edições que repõem seu conteúdo nas livrarias e bibliotecas (públicas ou particulares). E que, talvez o mais importante, não tenha valor sentimental: não tenha aquela dedicatória linda de alguém especial, ou não é presente de uma pessoa importante, não representa nenhum momento marcante de sua vida.

Nesse sentido, o que fazer com os livros velhos que invariavelmente aparecem na nossa vida? Primeiro,doá-lo para alguém que precise mais ou tentar recuperá-lo, afinal de contas a maioria das pessoas não tem dinheiro para repôr livros na prateleira. Mas e se eu não conseguir/puder/quiser? Pensando racionalmente (o que é bastante difícil para quem tem um apego aos livros como eu e muitos outros leitores espalhados por aí), o ideal seria reciclar. Afinal tudo que é velho ou vira lixo, ou ainda melhor, pode ser reaproveitado. Amantes de livros ficam com brotoejas quando um livro é utilizado para um fim que não seja a leitura, no entanto, voltando a pensar racionalmente, se o que interessa é o seu conteúdo, o texto, não é necessário se apegar tanto a um objeto que pode facilmente ser encontrado em qualquer livraria, biblioteca ou sebo em melhores condições e com o mesmíssimo conteúdo (às vezes atualizado, com uma nova revisão ou tradução, ou ambos).

Então, não é preciso entrar em pânico quando eu disser que fiz uma capa para meu Kindle a partir de um livro que pode ser chamado, agora sim, de velho. Nem quando aquela bolsa linda feita com uma capa de livro aparecer em algum blog ou rede social. No meu caso, foi bem difícil encontrar um livro com as dimensões necessárias para o meu propósito, e quando encontrei, fiquei com os dois pés atrás para utilizá-lo. Afinal, é uma edição dos anos 50 de uma compilação de contos de Machado de Assis, que faz parte de uma coleção estilo Biblioteca Folha de hoje em dia, bastante comum na época e que hoje não possui valor comercial para colecionadores, pois não é raridade, e nem teria porque ser guardada em um Museu ou Biblioteca de livros raros ou antigos. Mas mesmo assim, uma compilação de contos de Machado de Assis. Ponderei muito antes de colocar em prática o projeto “Proteja Seu Kindle Com Estilo” justamente por se tratar de uma obra do Machadão.

Depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que antologias de contos de Machado saem pelo ladrão em bibliotecas e livrarias, e que, portanto, esse exemplar não faria falta. E finalmente coloquei em prática meus dotes crafters e fiz a tal capa. Mas o coração ainda ficou apertado, o que me fez guardar as páginas do livro. Agora ele está na estante, sem capa, mas guardado para a posteridade. Essa questão da conservação e preservação de livros (e documentos, objetos, obras de arte, etc., de qualquer tipo) é muito importante para qualquer historiador (categoria na qual me encaixo) e deveria ser para qualquer cidadão do mundo. Afinal de contas, são através dessas fontes históricas, da qual o livro faz parte (seja como objeto, seja como texto), que podemos construir nossa história e nossa memória.

E o post que era para ser um Do It Yourself de como fazer uma capa bacana reciclando um livro virou um texto sobre questões linguísticas e, de certa forma, relativas a história, conservação, preservação de patrimônio material e cultural. Gostei. Espero que seja útil, no sentido de suscitar reflexão e questionamento. Se eu ainda vou fazer o DIY com a capa do Kindle? Sim,claro, mas essas são cenas do próximo capítulo. ;)

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O evangelho segundo a serpente, de Faíza Hayat

Faíza Hayat, O Evangelho Segundo a SerpenteA edição muito bem feita, com todo zelo e cuidado da Língua Geral encanta qualquer amante de livros: parece um moleskine, com direito a elástico para prender as páginas, corte roxo, páginas creme, fonte com o espaçamento ideal e páginas pretas para separar as partes do pequeno livro de 142 páginas da escritora de família portuguesa e católica pelo lado da mãe e indiana e muçulmana pelo lado do pai. Além disso, a orelha tem a indicação de Mia Couto. Quem não gostaria de levar um livro assim para casa.

No entanto, minha consciência sempre me diz: não leve um livro apenas pela capa. Ok, não foi isso que eu fiz. Fiquei curiosa pelas palavras de Faíza Hayat depois da indicação de Juliana Gervason, em um de seus Tudo Junto e Misturado (aqui e aqui) e saí procurando no Estante Virtual. O livro chegou aqui em casa e foi para a estante, e lá permanceu por quase um ano sem que eu sequer tocasse nele. Um sacrilégio, pois ele deveria ter sido devorado na mesma hora que adentrou minha porta. Infelizmente a vida adulta chegou e eu não estava (e continuo não estando) preparada para ela, e fui consumida pela minha desorganização monumental e a consequente falta de tempo para respirar.

Algumas, poucas, leituras depois, eu resgato da estante o livro de título curioso e aparência belíssima. Comecei a ler despretensiosamente. As primeiras páginas possuem uma beleza incomparável, aliás, o livro todo é assim. Cheio de possíveis citações em livros, blogs, facebook e até tatuagem.

O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume. Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão. Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica – nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante. (Faíza Hayat)

Mas mesmo com a beleza da narrativa de Faíza, o livro não me prendeu logo de início. Porém as coisas começaram a mudar e a narrativa – que de início era mais reflexiva – começou a ganhar mais ação e quando a leitura passou para a segunda das seis partes da história eu não consegui mais largar o livro.

É surpreendente o que a mistura de arqueologia, religião, amor, escrita em línguas antigas, mistério e poesia pode fazer. Um livro que mesmo ao acelerar o ritmo da narrativa não perde a beleza e a delicadeza. Fiquei realmente emocionada com a escrita de Faíza e certamente quero ler outras coisas da autora. Esse foi seu romance de estreia, mas os próximos que virão estão na minha lista de espera para futuras ótimas leituras.

O evangelho segundo a serpente
Faíza Hayat
Editora Língua Geral
Coleção Ponta de Lança
144 páginas

Rating: ★★★☆☆ 

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