As Brumas De Avalon Livro 2 – A Grande Rainha, de Marion Zimmer Bradley

As Brumas de Avalon - A Grande Rainha

A Grande Rainha, segundo livro da série As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, continua a saga das mulheres da corte da Bretanha, já então do Rei Artur. Ao contrário do primeiro livro, neste temos a presença contínua da cristã Gwenhwyfar (Guinevere), a Rainha, como o próprio título já indica. As outras personagens, com exceção de Morgana aparecem muito pouco e são mencionadas poucas vezes também. A Senhora do Lago, Viviane, é praticamente deixada de lado e Igraine possui um capítulo dedicado à ela.

Infelizmente, até mesmo Morgana é deixada um pouco de lado na trama. Com isto, quero dizer que ela até aparece bastante, mas seu papel é secundário, pois a narrativa está mais preocupada em narrar o desenvolvimento de Gwenhwyfar de frágil e amedrontada menina que foi desposada contra sua vontade, à Rainha de fato, que impõem sua vontade ao marido e exige inclusive que ele quebre seu juramento para com Avalon. Além disso, ela precisa lutar contra a tentação que Lancelot representa, sendo ele o amor que ela tanto deseja e não pode tê-lo, afinal ela é casada, e como boa cristã não pode entregar-se a outro homem, pois além de traição seria também pecado.

Em meio aos acontecimentos envolvendo o futuro do reino, há um reencontro entre Morgana e Lancelot, bruscamente interrompido. Acompanhamos, mesmo que em segundo plano, a trajetória de Morgana depois dos acontecimentos do final do primeiro livro. Temos a belíssima e intensa descrição do parto, onde Morgana da a luz ao filho indesejado. Segue-se a isso a ida de Morgana para a corte do Rei Artur, seu irmão, e sua permanência por lá como dama de Gwenhwyfar. Depois de alguns anos toma a decisão de voltar para Avalon. O capítulo que narra o encontro de Morgana com o País das Fadas e os dias que por lá passou é muito bonito. Marion descreveu com uma veracidade bastante interessante, além de utilizar o jogo de palavras para fazer o leitor sentir como se também estivesse por lá e passasse pela mesma confusão temporal pela qual a personagem passou.

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Links Love #1

Esse é o primeiro Links Love aqui do Trecos & Trapos. Tem tanta coisa boa sendo escrita por aí, porque não compartilhar os achados? Gosto tanto quando frequento um blog e num belo dia aparece um post  com links para coisas super bacanas encontradas em peregrinações virtuais.

Steven Moffat

1. O Cara – Quem é O cara? Steven Moffat, claro. Em um texto super bacana o @cavalca disserta sobre um dos melhores showrunners da atualidade – sim ele é showrunner de Doctor Who!

2. Um guia pela selva de livros e sangue do universo de Bolaño – Antônio Xerxenesky fala sobre Bolaño, aquele que ainda não caiu nas graças da minha estante.

3. A Era dos Fast-Books – A Janda, do blog Subtítulo, disserta sobre a nova sede de consumo de livros e a leitura tão rápida quanto superficial.

4. Tradutor, Sim! – Um texto muito bacana sobre a nova profissão que me espera dentro de alguns anos. Sou apenas uma caloura no curso de Letras.

5. Dez leituras de arrepiar – uma lista com dez grandes livros policiais para ler e se divertir com o crime e o suspense.

As Brumas De Avalon Livro 1 – A Senhora Da Magia, de Marion Zimmer Bradley

As Brumas de Avalon Livro 1 - A Senhora da Magia

Acabo de ler o primeiro livro da quadrilogia As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley que o Ju comprou pra mim no submarino (por R$ 29,90, um preço justo para uma edição tão pobrezinha e com uma diagramação from hell).

Eu tinha vontade de ler As Brumas de Avalon desde os meus 15 anos, quando comecei a me interessar por religiões pagãs, celtas e até cheguei a ler alguns livros sobre Wicca (alguém lembra da modinha Wicca do final dos anos 90?). O tempo passou e por diversos motivos adiava a leitura. Agora que comecei a quadrilogia não posso mais parar. Fiquei realmente encantada com a beleza do livro e das personagens.

A leitura não foi muito rápida pois li ao mesmo tempo outras coisas e em alguns momentos – infelizmente – tive de priorizar outros textos ao de Marion. Mas todas as vezes que pegava o livro para ler o fazia com imenso prazer e devorava suas páginas.

A lenda que envolve o Rei Arthur me é muito cara desde a infância. Desde lá eu tenho uma fascinação por histórias da Idade Média. Não o medievo dominado pela Igreja Católica, mas aquele das contradições entre paganismo e cristianismo, aquele das tribos que ainda seguiam as religiões antigas e faziam seus rituais nas florestas pedindo por coisas como fertilidade da terra. E como quase todas as crianças, tinha (e ainda tenho) fascinação pelo mágico: por fadas, gnomos, duendes, magos, bruxas, e todo ser mágico das florestas, mesmo tendo dificuldade para definir cada um deles na época (e ainda hoje confundo um pouco as categorias dos fascinantes espécimes).

Nesse primeiro livro, A Senhora da Magia, temos os primeiros acontecimentos que levaram à coroação de Arthur como Rei. E todos eles apresentados através da narração de Morgana e, portanto, a partir de uma perspectiva feminina, o que me encantou ainda mais. Em um universo machista, imposto pelo cristianismo à grupos humanos antes guiados pela Grande Deusa, as mulheres desempenharam um papel importantíssimo tanto para garantir (ou não) a permanência de Avalon, quanto para unir os povos da Bretanha.

Marion Zimmer Bradley reconstrói a partir de estudos da história e da lenda, da fantasia, uma Bretanha no início da Idade Média e faz muito bem. A verossimilhança é impressionante (verossimilhança porque é impossível para a História reconstruir o passado tal como era) e dá ainda mais vivacidade à narrativa. Não só os acontecimentos são extremamente realistas e baseados na história como a descrição das paisagens e principalmente dos rituais são fascinantes.

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2001: Uma odisséia no espaço

Depois de terminar de assistir 2001: A Space Odyssey (1968) fiquei perplexa. A beleza, a complexidade, os diálogos, as imagens, a fotografia, efeitos especiais, história, a música, o silêncio, a lentidão, tudo convergiu para que no final eu sentisse essa perplexidade, uma mistura de incerteza e estranheza. Não é para menos, estou falando de um dos filmes mais complexos da História do cinema. E falar sobre ele não é fácil. Primeiro é preciso digerir o filme que Stanley Kubrick deixou de presente para a humanidade. E nem assim me sinto apta a falar dele.

Uma obra em que cada quadro é pensado e estudado antes de ser feito. E mais de quarenta anos depois de seu lançamento (1968) ainda é objeto de longas discussões a respeito das diversas ideias e proposições apresentadas e muitas interpretações são elaboradas. Sua história é de difícil entendimento, e por diversas vezes parece até sem sentido. No entanto, não é o sentido da história, da narração, que importa para o filme, e sim os temas por ele suscitados. Temas ainda atuais.

Um filme a frente de seu tempo – o homem pisou na Lua apenas um ano depois de seu lançamento. Kubrick e Arthur C. Clarke (o filme é dirigido pelo gênio Stanley Kubrick e o roteiro é uma parceria entre Kubrick e Arthur C. Clarke (autor de ficção científica) e foi sendo construído e modificado ao longo das filmagens) foram extremamente cuidadosos ao criar seus cenários espaciais, preocupado com a maior verossimilhança possível ele buscou modelos na NASA para criar as suas naves (diferentemente dos seus predecessores que faziam os OVNIS de cartolina ou latão, o que nem por isso desmerecem esses filmes dos quais sou fã).

Para os filmes de ficção científica há o antes e o depois de “2001” – anteriormente composto por filmes “Bs”, com poucos recursos financeiros, que serviam para o entretenimento da juventude. Depois da direção de Kubrick a ficção científica no cinema nunca mais foi a mesma.

Mas o filme não é apenas um marco na história do cinema, ele é também uma obra-prima, embalada por um repertório musical que parece ter sido feito especialmente para suas cenas, no entanto foram utilizadas composições já existentes como “O Danúbio Azul” de Johann Strauss. Um filme de poucos e significativos diálogos, brinca com períodos de silêncios (o som não se propaga no vácuo, e nesse sentido essa foi uma das brilhantes utilização da realidade e da ciência em seu filme), do som da respiração potencializado nos uniformes espaciais, e uma brilhante utilização da imagem. O filme é uma obra visual, que tenta, através da imagem, suscitar os temas relacionados à evolução humana, vida extraterrestre, nascimento e renascimento.

Há dois momentos no filme que são meus preferidos. O primeiro deles é logo no início, no capítulo intitulado A Aurora do Homem (ou A Aurora da Humanidade), quando nosso ascendente primata mira um montículo de ossos e acaba descobrindo neles uma ferramenta, a primeira delas: uma arma. Essa é, para mim, a cena mais linda já feita no cinema. A expressão do primata frente ao objeto que contempla é algo aterrador 9mesmo com o uso da máscara o ator foi genial) e quando ele começa aos poucos a manusear o osso e o volume da música aumentando no ritmo em que a intensidade do manuseio também aumenta me deixou boquiaberta. Todo esse primeiro capítulo me fascina.

O segundo deles, quase uma unanimidade entre os fãs do filme, é o momento em que o astronauta desliga o computador HAL. De uma beleza emocionante, é possível até criar empatia com a inteligência artificial, que até então evoluiu negativamente, assassinando a maioria da tripulação da nave. HAL é, inclusive, o tripulante que mais expressa seus sentimentos, principalmente o medo ao perceber seu destino.

Feito de pequenos detalhes e pensado por uma figura também bastante enigmática, é considerado a melhor obra da pequena filmografia de Kubrick. Uma combinação perfeita entre imagem, som, história, atuação e personagens, um turbilhão de informações. Um filme para se ver várias e várias vezes, para manter acesa a necessidade de discutir seus temas e apreciar uma obra visual belíssima.

A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

Para dar continuidade à leitura da Trilogia Millennium, li o terceiro volume da série: A Rainha do Castelo de Ar. Mais uma vez as expectativas foram superadas.

Nesse livro Larsson narra os acontecimentos imediatamente posteriores ao final do segundo volume da trilogia. As primeiras 150 páginas possuem uma narrativa mais lenta em relação ao restante da série e do próprio livro em função exatamente da natureza dos acontecimentos. Lisbeth vai para o hospital e sofre algumas cirurgias, a mais complicada delas consistia em retirar um projétil alojado em seu cérebro. A partir de então ela fica incomunicável, detida na sala de recuperação pela polícia. As únicas pessoas com as quais ela tem contato são da equipe do hospital que são responsáveis pelo seu estado de saúde, sua advogada e a polícia.

Enquanto isso Mikael continua sua investigação paralela à da polícia para provar a inocência de Lisbeth. Na busca por informações ele próprio passa a ser alvo da organização secreta do governo a qual ele investiga e privou Salander de sua liberdade constitucional. Mais uma vez Larsson me surpreendeu com sua narrativa, o livro parecia um imã, pois não conseguia ficar longe dele até terminada a leitura. A parte final é ainda mais instigante e a narrativa é tão fluida que li muitas páginas tão rápido que quando vi já tinha terminado o livro.

O mistério em torno de Salander é revelado por completo, o que poderia fazer com que a personagem perdesse o encanto. Todavia, ocorre o contrário, fiquei ainda mais apaixonada por Lisbeth. É uma personagem tão interessante, complexa, admirável, forte e frágil ao mesmo tempo, anarquista e independente que faz ter vontade de mudar vários aspectos de nossas vidas. E não é apenas a dupla Mikael-Lisbeth que são personagens incríveis, cativantes e cheio de nuances. Muitos outros nos são apresentados ou retomados ao longo do livro.

Uma narrativa clara, concisa, de tirar o fôlego e de uma evolução surpreendente, A Rainha do Castelo de Ar é o mais longo dos livros da Trilogia Millennium e pode até intimidar alguns leitores pelo tamanho, mas certamente conquistou minha admiração. Sua leitura despertou em mim, além de um sentimento agradável que se apoderou do meu ânimo ao ler um livro extraordinário, uma angustiosa e deliciosa expectativa sobre o que poderia acontecer. Cada palavra, cada frase, tinha um porquê e levava a um questionamento sobre os caminhos e decisões a serem tomados pelos personagens.

Leia os textos para os dois primeiros volumes da Trilogia Millennium publicados aqui no blog:

  1. Os homens que não amavam as mulheres
  2. A menina que brincava com fogo

A Rainha do Castelo de Ar
Trilogia Millennium Volume 3
Autor: Stieg Larsson
Editora: Companhia das Letras
688 páginas
Skoob | Submarino
[xrr rating=5/5]