As Crônicas de Nárnia Volume Único (C. S. Lewis)

As Crônicas de Nárnia Volume Único - C. S. Lewis
As Crônicas de Nárnia Volume Único - C. S. Lewis

São sete as crônicas de Nárnia, foram escritas e lançadas em anos diferentes por C. S. Lewis e posteriormente reunidas em um único volume (The Complete Chronicles of Narnia). No Brasil o volúme único da obra foi lançado pela Editora Martins Fontes como As Crônicas de Nárnia Volume Único.

Publicadas individualmente pela ordem que o autor escrevia, elas foram reunidas na ordem cronológica dos acontecimentos (diferente da ordem de lançamento. As crônicas são as seguintes:

O Sobrinho do Mago – publicado originalmente em 1955. a obra narra a criação do mundo de Nárnia e como começaram as idas e vindas entre o mundo de Nárnia e o nosso. Nela também se conhece o caráter multiverso de Nárnia com o Bosque entre Mundos, que possibilita acesso a diferentes mundos através de lagos com dois anéis mágicos.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa – publicado em 1950, mas escrito em meados de 1940 esse é o primeiro livro escrito da série e é também o mais famoso (e um filme já foi feito a partir dele). Neste livro são narradas as aventuras de quatro irmãos: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, que fugindo dos bombardeios a Londres durante a II Guerra Mundial, vão até a casa de um professor que morava no campo. Lá encontram dentro de um guarda-roupa (cuja origem é revelada em O Sobrinho do Mago) uma passagem que liga nosso mundo ao mundo de Nárnia.

O Cavalo e seu Menino – publicado em 1954, é o quinto livro da série a ser publicado, mas é o terceiro livro da série na ordem sugerida de leitura. Este livro narra a trajetória de Shasta e Bri. O primeiro um menino pobre que vivia na Calormânia outro país do mundo de Nárnia e o segundo um cavalo falante que se perdeu fora dos limites de Nárnia e virou escravo de um humano (essa terminologia é usada para caracterizar todas as relações entre os animais comuns de carga, transporte etc e os humanos). Na época de ouro de Nárnia, o reinado dos quatro irmãos, Shasta e Bri se vêem numa fuga em direção a Nárnia em busca de uma nova vida.

Príncipe Caspian – escrito em 1951, é o segundo livro da série a ser publicado, mas o quarto na ordem sugerida de leitura. O livro conta a história de Caspian, um príncipe que é herdeiro legítimo do trono de Nárnia e para reavê-lo das mãos de seu tio recebe a ajuda dos quatro irmão que foram embora daquele mundo mais de mil anos antes.

A Viagem do Peregrino da Alvorada – publicado em 1952. É o terceiro livro da série a ser publicado, mas é o quinto livro da série na ordem sugerida de leitura. O livro narra as aventuras de Lúcia e Edmundo (dois dos quatro irmãos e reis de Nárnia na época de ouro), juntamente com o primo Eustáquio e o agora rei Caspian, a bordo do navio Peregrino da Alvorada. Juntos têm a missão de saber o que aconteceu com os sete fidalgos que foram enviados para desbravar o oceano oriental por Miraz, tio de Caspian, conforme narrado em Príncipe Caspian.

A Cadeira de Prata – publicado em 1953, é o quarto livro da série a ser publicado, mas o sexto em ordem sugerida de leitura. É o primeiro livro por ordem de publicação que não conta com a presença de qualquer dos irmãos Pevensie. Neste livro está narrada somente a volta de Eustáquio até Nárnia na companhia de sua amiga Jill Pole. Desta vez eles conseguem ir até Nárnia através de um velho portão nos fundos da escola onde estudavam.

A Última Batalha – publicado em 1956, é o último livro a ser publicado da série e também o último na ordem sugerida de leitura. A obra narra os últimos dias de Nárnia quando Tirian era rei em Cair Paravel. Tudo começa quando um velho macaco chamado Manhoso que vivia no lado ocidental de Nárnia, juntamente com um burro chamado Confuso, encontra uma pele de leão. Fazendo grandes planos, o macaco veste o seu amigo burro com a pele de leão e passa a propagar as falsas notícias de que Aslam teria voltado e que ele seria o seu porta-voz.

São sete livros infantis, que em sua narrativa de fantasia escondem uma série de polêmicas relacionadas à religião. Lewis se converteu ao cristianismo e recebeu muitas críticas em relação a essa obra. Uns dizem que ela incita ao paganismo, outros que ela é evangelizadora, outros ainda dizem que os não iniciados ao cristianismo (oi?) nem perceberam as várias e várias referências ao longos dos livros.

Buenas, falar isso no Brasil é quase como falar em em religiões afros para um nórdico. Eu não conheço ninguém que, mesmo sendo ateu, judeu, ou seguidor de qualquer religião que não esteja minimamente familiarizado com a mitologia do cristianismo. Mas deixemos de lado essa questão e vamos ao que interessa.

Eu, leitora desde muito pequena, percebi algumas das referências, achei-as desinteressantes e não pude deixar de notar que elas deixam no ar uma semente de evangelização sim. Imagine um pequeno leitor, iniciando suas aventuras no mundo das letras, se deparando com referências aos filhos de Adão e as filhas de Eva. E mesmo que o mundo fosse extremamente conservador na época, esse discurso criacionista me pareceu um pouco estranho (convenhamos, Darwin já aprontava das suas no século XIX).

Outro incômodo que senti ao ler os livros foi a sensação de que a qualquer momento um discurso machista poderia ser desferido. Claro que eles foram escritos por um homem nascido antes da tal liberação feminina e cristão (que me desculpem os fiéis, mas muitos continuam machistas até hoje), mas mesmo assim fiquei com uma sensação estranha.

O sexismo é recorrente na obra, as mulheres/meninas Suzana e Lúcia são sempre tratadas como frágeis. Suzana esquece de Nárnia por estar muito preocupada com coisas de meninas (batons e roupas). Mas o papel feminino não resume a apenas isso, enquanto elas são crianças inocentes, são dignas de expressão, a mulher madura (mulher moderna?) que não acredita mais em histórias de príncipes encantados e cavalo branco não pertencem ao mundo idealizado por Lewis.

Um personagem que resume bem uma questão interessante é Eustáquio. Ele é republicano, filho de pais modernos, vegetarianos e ao meu ver, um símbolo dos novos ares que a sociedade vem adquirindo. Eles são pessoas idesejáveis.

Entretanto, incômodo maior eu senti com as manifestações de racismo e eurocentrismo em muitas passagens da obra. O racismo é quase descarado, principalmente em O Cavalo e seu Menino, onde a diferença entre os homens de Nárnia e os Calormânios são evidenciadas pela cor e pelo temperamento (os últimos são pessoas de péssimo caráter e de pele mais escura). Os narnianos representam claramente os europeus, mas não qualquer tipo de europeu. O europeu cristão, os homens de bem da sociedade – óbviamente a juventude transviada que começa a pipocar, mesmo que de maneira incipiente, por todo o mundo ocidental não faz parte dessa Europa de que Lewis faz referência.

Além de todas essas polêmicas que citei (e mais algumas), o autor se valeu de influências mitológicas para compor seu mundo (inclusive a sua amizade com o mestre Tolkien – também cristão, mas muito mais sofisticado ao escrever –  foi de grande valia para que Nárnia viesse a existir.

Mesmo com todas essas questões, são livros que valem a pena serem lidos, com um olhar bastante atento e crítico. São histórias infantis, problemáticas – de alto cunho ideológico – como as são várias das narratias infantis produzidas no Brasil, vide Monteiro Lobato, que, entretanto, cumprem seu propósito: entretêem e divertem e mantém acesa a chama da fantasia e da criatividade.

Nota: 3,5
(de 0 a 5, sendo:0 – Péssimo; 1 – Ruim; 2 – Regular; 3 – Bom; 4 – Muito bom; 5 – Excelente)

Esta resenha faz parte do projeto Desafio Literário 2010 proposto pelo blog Romance Gracinha e corresponde ao mês de Fevereiro, cujo objetivo é ler um livro que nos remeta aos contos de fada.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês.

E confira também os livros que li até agora para o desafio:

JaneiroQuincas Borba (Machado de Assis)

Deixe um comentário pelo Facebook

21 comments / Add your comment below

  1. I came to your blog last week and I have been reading through it regularly. You have a ton of very good informative stuff on your blog and i also love the particular kind of your website at the same time. Keep up the good work!

  2. Acho que são meus livros preferidos. E, não sei, nada disso me incomodou. Até a questão religiosa que costuma me incomodar… Nárnia conseguiu sempre me tocar de um jeito incrivelmente belo, sabe? 🙂 Uma série capaz de lavar minha alma.
    O volume único tava por R$10 no Submarino dia desses! :O Quis até comprar de novo, mesmo já tendo! haha

    1. @Emi, eu gostei do livro, mas essas questões sempre me fazem refletir e gosto de comentar coisas do tipo quando resenho um livro, para ampliar as discussões. Claro que nem todos se sentem incomodados, outros são até indiferentes, vai de cada um.

      E o meu exemplar é desses da promoção do Submarino, hehehehe. Mas foi presente.

      Beijos

  3. Oi, Dani!
    Clap, Clap, Clap! Resenhaço aço aço aço! Gosto quando o leitor vai a fundo e consegue analisar a obra lida para além da subjetividade e gosto pessoal. E você o fez muito bem. Estou feliz em contar com a sua participação no desafio. Adorei as suas sugestões para o ano que vem. Vamos fazer a edição 2011 sim e muitas outras. Mas, vou precisar de uma equipe trabalhando comigo no desafio. È muita coisa para fazer…Ô se é!

    Beijocas
    Vivi

  4. Báh melhor resenha que já li sobre Nárnia, eu gosto dos livros, mas também fico meio assim com estes problemas que tu citou, acho que tens que ter um senso crítico bem grande para ler esta obra!

    estrelinhas coloridas…

    1. Oi @Marília.

      Como eu escrevi no texto, essa é uma boa obra para se ler tendo essas questõs em mente, mas como são livros infantis, no período da vida em a maioria dos leitores entram em contato com eles é justamente numa idade que o discenimento é diferenciado do olhar de alguns adultos.

      Muito obrigada pelo comentário, volte sempre.

Deixe uma resposta

CommentLuv badge

%d blogueiros gostam disto: