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Mais teatro, Brasil!

O teatro é uma das artes mais antigas da humanidade. Infelizmente ela é hoje quase exclusividade das classes mais abastadas da sociedade, e isso não é porque os atores ou produtores culturais estão apenas interessados em dinheiro, muito pelo contrário, existem milhares de iniciativas espalhadas pelo país que visam democratizar o acesso à cultura e aí está inserido também o teatro.

Mas existe essa palavrinha mágica: acesso. A maioria das pessoas, de cidades pequenas, de pouco poder aquisitivo e sem o hábito de frequentar teatros, não tem acesso a arte dos palcos. E o acesso não diz respeito apenas ao valor dos ingressos para assistir espetáculos. É claro que o valor desses ingressos, na grande maioria das vezes, não condizem com a situação financeira da maioria da população brasileira. Entretanto, um dos motivos que mais pesa para que muitas pessoas que desejam assistir espetáculos teatrais não o façam é a falta de salas destinadas a esse propósito nas cidades em que vivem.

As salas de teatro estão concentradas nas regiões centrais, capitais e grandes cidades. Quem mora em regiões metropolitanas está, por vezes, muito distante dos locais destinados a cultura e perdem diversas oportunidades justamente pela distância e por depender do transporte público para se deslocar – e retorno acaba por ficar prejudicado, pois linhas intermunicipais tendem a ter horários reduzidos à noite.

Esse é justamente o meu caso. Moro na região metropolitana de Porto Alegre e se um espetáculo termina depois de uma certa hora não tenho como voltar pra casa (isso e é claro o valor absurdo dos ingressos de muitos espetáculos que vem pra cá). Já frequentei muito mais as salas de espetáculo, hoje fico a desejar. Iria muito mais ao teatro se na minha cidade houvesse um Teatro. Minha cidade tem mais de cem mil habitantes e nenhuma sala de espetáculos. Nem pública, nem privada.

Como muitas pessoas passam por situações semelhantes em todo o Brasil a Cennarium, empresa que transmite teatro via web, investiu em uma iniciativa mais do que bacana, a campanha “Mais Teatro, Brasil” que visa reunir assinaturas para o projeto de lei de incentivo popular que obrigue todo município com mais de 25 mil habitantes a receber um teatro com estrutura mínima para 250 espectadores.

Para saber mais leia o manifesto da campanha e se você também concordar que o teatro é nosso e o Brasil precisa de mais teatro, assine!

Qual a missão e o objetivo da campanha? Leia um trecho do manifesto e entenda:

Missão:
A Campanha é um grande manifesto nacional que tem como missão fundamental a inclusão sociocultural, educacional e digital, incentivando e disseminando arte, cultura e entretenimento de Norte a Sul do Brasil, tendo como base fundamental o Teatro!

Objetivo da Campanha:

Colher o maior número de assinaturas possível para dar entrada, junto ao Congresso Nacional, num Projeto de Lei de Iniciativa Popular, para que seja obrigatória a construção de um “Centro Integrado de Cultura” em cada município, cuja população seja superior a 25 mil habitantes.

A ideia central é permitir que populações inteiras, que nunca tiveram contato com espetáculos de qualidade, ou mesmo espaços destinados à arte e à cultura – em sua imensa maioria restritas ao eixo Rio – São Paulo –, passem a ter acesso as mais diversas formas de expressão artístico-culturais, fomentando e desenvolvendo entre estas populações, um hábito tão fundamental para a formação do caráter de um povo, como é a cultura!

Essa campanha é fundamental para alertar os governos e até mesmo a população para uma das áreas mais esquecidas no país, a cultura. Se um projeto como esse virar lei eu terei um centro integrado de cultura na minha cidade e todas as pessoas que moram em cidades menores que a minha também.

Vale ressaltar que um espaço físico destinado a cultura não é o único lugar onde se faz cultura. A cultura é tudo aquilo que a comunidade produz e existe o teatro de rua, que se pretende um teatro acessível a todos e que possa ser feito em qualquer lugar, no entanto a necessidade de um espaço específico é inegável.

Mais Teatro, Brasil!
Faça a diferença, porque, afinal: O Teatro é Nosso!
Dou a Maior Força!
E você?

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva Mais Teatro Brasil promovida pelos blogueiros e twitteiros @samegui @maxreinert @alessandro_m e @lilianeferrari.

Obituário: Augusto Boal

Hoje o mundo ficou um pouco mais cinza. Morreu na madrugada deste sábado o dramaturgo  e pensador do teatro Augusto Boal, aos 78 anos. Ele que contribuiu na fundação do Teatro de Arena, foi perseguido e torturado durante a ditadura, foi para Argentina, Portugal e França trabalhar e divulgar seu Teatro do Oprimido deixou uma herança artística e política.

A importância de Boal para a dramaturgia brasileira é inegável. O teatro de Boal é um teatro radical, ele sempre sonhou em um mundo novo, onde as pessoas contribuíssem com as próprias mãos.

No Teatro do Oprimido o teatrólogo buscava a democratização do teatro, onde ele percebia a possibilidade de qualquer pessoa entrar em cena. Ele desenvolveu uma série de jogos, técnicas teatrais e exercícios cênicos para atores e não atores. Para que o exercício cênico fizesse parte de uma percepção do mundo real e da importância de transformá-lo em um novo mundo.

Eu tive uma pequena experiência com algumas de suas proposições (em especial o Teatro Jornal e o Teatro Imagem) e li algumas de suas obras sobre o Teatro do Oprimido quando da minha experiência na Terreira da Tribo.

Agora ficaram seus escritos, os registros de suas práticas e o mais importante de tudo, seus ensinamentos.

Viúvas: Um Exercício Cênico sobre a Ausência

Quem me conhece de outros carnavais sabe que durante muito tempo dediquei miha vida as artes cênicas. Fiz a Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo (eu fui aluna da segunda turma, lá em 2002), participei de alguns exercícios cênicos e era feliz.

Essa fase já passou, apesar de ter algumas recaídas onde bate uma vontade de subir em um palco, reviver alguns personagens, explorar outras personalidades. Mas logo passa, essa não é mais a vida que eu quero. No entanto, o teatro ainda é uma das atividades culturais que mais me atrai. Tenho um prazer imenso em ver espetáculos cênicos. E quando esse espetáculo está vinculado a um dos maiores e melhores grupos teatrais do Brasil, o Ói Nóis Aqui Traveiz, fico sempre com uma expectativa muito grande. A estética do grupo é simplesmente fantástica, a proposta cênica é única e as ações do grupo são sempre voltadas para instrumentalizar atores (no caso atuadores) e público para utilizar o teatro como instrumento de discussão social.

E agora em Agosto (alguma coisa boa em Agosto! É presente de Baco) inicia a mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem com a encenação Viúvas: Um Exercício Cênico sobre a Ausência, adaptação livre da peça de Ariel Dorfman. A montagem fica por conta da turma deste ano da Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. A temporada será de 9 a 31 de agosto, sábados às 21 horas e domingos às 20 horas, na Terreira da Tribo (Dr. João Inácio 981 – Navegantes, Porto Alegre), com entrada franca.

O espetáculo retrata a trajetória de mulheres que lutam pelo direito de saber onde estão os homens que desapareceram ou foram mortos pela ditadura que se instalou em seu país. Uma alegoria sobre os acontecimentos das últimas décadas na América Latina, e principalmente sobre a necessidade de manter viva a memória de um tempo de horror para que não volte a acontecer. Adaptada do romance homônimo escrito por Dorfman em 1981, oito anos após o golpe que levou o General Pinochet ao poder chileno. Exilado, ele escreve esta obra com o propósito de denunciar a ditadura em seu país e, sobretudo, o desaparecimento de milhares de adversários políticos do regime.Um tema que não esgota as possibilidades.

Recomendo com carinho este exercício cênico, com o mesmo carinho que eu tenho pelos trabalhos que realizei na época em que estava engajada nas atividades da Terreira da Tribo.

Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo
Clique para ampliar.

Os próximos espetáculos a darem continuidade à mostra são: A Saga de Galatéia, baseado no texto Borandá – Auto do Migrante de Luis Alberto de Abreu (encenado pelos alunos da Oficina de Teatro do Bairro Humaitá/Grupo Trilho); Aquele que Diz Sim e Aquele que Diz Não (eu já participei de uma montagem dessa peça), de Bertolt Brecht com alunos da Oficina de Teatro do Bairro Restinga) e a A Comédia do Trabalho, versão livre da peça de Sérgio de Carvalho e da Companhia do Latão (encenado pelos alunos da Oficina da Vila Pinto no Bairro Bom Jesus).

Porto ainda mais alegre nesse verão

Verão, sol, praia. Muitas pessoas passam os meses mais quentes do ano desfrutando da areia e a água salgada do litoral. No entanto, quem fica em casa padece com os péssimos programas de televisão, um calor abafado, o ar pesado da cidade e dificuldade até em se concentrar em uma boa leitura (este último para os desprovidos do famoso ar condicionado). Não em Porto Alegre.

Há nove anos o verão da capital gaúcha vem desfrutando de uma temporada teatral para todos aqueles que por um motivo ou outro estão na cidade. É o Porto Verão Alegre. Na sua melhor e mais madura edição o evento saiu da mesmice de sempre e inovou com parcerias e atividades paralelas.

Em parceria com o SESC o Porto Verão vai disponibilizar para a população de Porto Alegre (inclusive a da periferia) teatro grátis neste verão. Desde o dia 19 de janeiro até o dia 23 de fevereiro quatro grupos de Teatro de Rua estarão apresentando seus trabalhos pela cidade. E o teatro é tema da mostra de cartuns especialmente programada pela Grafar para o Porto Verão Alegre 2008. A exposição denominada Pregando Peça: O Teatro Segundo Os Cartunistas começou no dia 17 de janeiro e vai até o dia 16 de fevereiro de terças a domingos das 9 às 21 na Usina Do Gasômetro (galeria do 4º andar).

A programação do festival iniciou no dia 07 de janeiro e vai até dia 24 de fevereiro, e conta ainda com espetáculos gratuitos não só nas ruas e praças, nas salas também é possível assistir a diversos espetáculos sem precisar pagar nenhum pila.

Prefeitura doa terreno ao grupo Terreira da Tribo

Na tarde de ontem, 8, o prefeito de Porto Alegre José Fogaça anunciou a doação de uma área de mais de mil metros quadrados para a construção da sede da Terreira da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz. O anúncio foi feito durante audiência com representantes do grupo teatral e secretários municipais de governo. O terreno é de propriedade da Secretaria Municipal da Fazenda e será doado ao grupo em forma de comodato, por tempo indeterminado, atendendo a uma demanda do Orçamento Participativo de 1995.

No ano que completa 30 anos, o Ói Nóis Aqui Traveiz começa a construir seu caminho de volta à Cidade Baixa, onde criou a Terreira da Tribo em 1984. Além das diversas atividades que comemorarão o aniversário da Tribo durante todo o ano, no dia 31 de março, data que marca a estréia do primeiro espetáculo do Ói Nóis, será realizada uma ocupação simbólica no terreno da rua João Alfredo, esquina com a Rua Aureliano de Figueiredo Pinto, com uma apresentação especial de Teatro de Rua.

Essa é um conquista muito importante para o teatro local. O Ói Nóis é, para mim, o melhor grupo de teatro do RS e marcou parte da minha vida, quando fui aluna da Escola de Formação de Atores e nos anos seguintes, quando participei de outras oficinas e projetos. Sinto muita saudade desse tempo, e às vezes me pego pensandoem voltar. Tive meus motivos para me afastar das atividades, mas continuo um admiradora, defensora e entusista do trabalho da tribo, exemplar pela proposta e ideologia. Desejo tanto sucesso nessa nova fase do grupo. Essa notícia encheu de cor e deu um brilho todo especial ao meu dia. Estou rindo por dentro, e por fora.

Eu participei dessa turma e esse espetáculo fui uma das melhores coisas que já participei na minha vida. Quem me encontrou ali?

“O teatro

é o estado,

o lugar,

o ponto,

onde se apreende a anatomia humana,

através dela se cura e se rege a vida.”

(Antonin Artaud)

A Casa

Passeando pelas ruas de Porto Alegre, as mesmas ruas de sempre. Vento no rosto, conversas gostosas, Gasômetro, Guaí­ba (o lago), pôr-do-sol, vermelho. Subindo a ladeira e chegando no casarão em reforma. Aguarda ansiosa que a porta se abra. Multidão de faces desconhecidas, olhares cúmplices. A porta finalmente abre. Um novo mundo aguarda. Escuro corredor, a multidão a segue.

Chega na sala escura, de tijolos à mostra, lampião aceso, cadeiras ao redor e uma pessoa, uma cadeira, no centro. Sentada, olhar fixo. É Bernarda Alba, reconhece de primeira. Procura um lugar aconchegante na arena negra com portas e janelas brancas, abertas. Contraste. Olha ao redor, presta atenção em cada tijolo, em cada madeira, em cada lampião, e em Bernarda, em seu olhar, fixo, sempre, com uma bengala opressora nas mãos. Todos sentados. Bernarda ainda ali, com o olhar fixo.

Os primeiros acordes começam a soar. E ela ali, com o olhar fixo. Quatro saí­das, quatro fantasmas. Não, são cinco, cinco fantasmas. Elas surgem como fantasmas de si mesmas. Adentram a sala escura ao som do mais melancólico violão espanhol. Cruzam-se, não se olham. E Bernarda ali. Sentada, olhar fixo. Param. Todas. A música soa mais forte, mais no fundo da alma de cada um. De cada uma. Do teto descem negras vestes. Pendem na frente de seus fantasmas. É o luto. Pegam os vestidos, e revelam uma cruz. Uma cruz para cada fantasma. As meninas fantasmas deixam o branco pra traz. Agora estão negras, negras vestes. Bernarda, em seu primeiro gesto levanta e dá os primeiros passos. Desafia, com seu sapateado àquelas meninas. As janelas são fechadas, lacradas. É o luto.

Cada uma daquelas meninas fantasmas com seus medos, anseios e feminilidades reprimidas pelo luto de Bernarda. Suas vontades, das mais infantis às mais lascivas foram proibidas. Desejos presos nos corpos alvos. Como elas: presas na casa. Um espetáculo acontece frente aos olhos de todos. Dança, paixão, melancolia e os acordes espanhóis. Bernarda vigia, pune, cada uma das meninas fantasmas estão sob o olhar fixo de Bernarda, mesmo quando ela não está na sala. Uma delas se deixa entregar ao desespero e à paixão. Abre as janelas outrora lacradas, deixa entrar um homem, o homem. Entrega-se. Todos perplexos. Bernarda vê. Reprime.

Somos todos convidados a seguir, pelo corredor escuro, vendo os martírios, os carrascos, os penitentes nas mentes labirínticas dessas meninas mulheres fantasmas. Forte, sangrento, furioso, enegrecido pela dor de mais uma perda. Foi assim que Garcí­a Lorca nos fez ver a dor da guerra, da ditadura, do enclausuramento.

Luz, aplausos, agradecimentos. Termina um espetáculo. A Casa – dança flamenca-teatro. Prorrogado por mais uma semana. Garcí­a Lorca revisitado pelo sentimento e pela força do flamenco. Vale muito a pena.