Che Guevara – A vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Che Guevara - a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Escolher uma biografia é escolher ler sobre um personagem real do qual queremos conhecer mais sobre sua vida. Nesse sentido, a escolha recai mais sobre o personagem em si do que ao livro que poderemos ler, visto que um mesmo sujeito pode ter sua vida biografada por mais de um autor. Eu não li muitas biografias ao longo de minha vida, e não estou acostumada com a linguagem utilizada (se é que existe um padrão no gênero), e me deparar com uma biografia de um personagem tão enigmático quanto mitológico para a juventude do século XX foi uma bela surpresa.

Na verdade eu comecei a ler Che Guevara – A Vida em Vermelho, de Jorge G. Castañeda, em 2000, e no auge dos meus 16 anos não tive maturidade e conhecimento histórico suficientes para aguentar a densa leitura que a biografia requer. Retomando uma leitura abandonada há mais de dez anos pude finalmente compreender isso. Não que hoje eu seja um exemplo de maturidade e sabedoria, mas minha experiência de vida permitiu uma compreensão maior do texto de Castañeda, e, porque não, da vida de Che.

Não foi uma leitura fácil: a vida de alguém como Che é difícil de ser sintetizada e suavizada. Pelo contrário, não há palavras que definam a intensidade e a paixão pela revolução do filho da Dona Célia. O Argentino que percorreu o mundo, participou de uma das mais emblemáticas Revoluções do século XX, tentou repetir o feito na África e iniciar a Revolução por toda a América Latina a partir da Bolívia deixou como herança aos povos subjugados pelo Imperialismo, aos jovens rebeldes, aos que lutam por uma sociedade mais justa, a esperança. Foi transformado em mito antes mesmo de sua morte, mas foi ela quem trouxe à juventude dos anos sessenta (os anos da rebeldia, dos Beatles, da luta pela paz) um símbolo que não morreu jamais.

O calhamaço de 536 páginas é dividido em 11 capítulos mais as notas e referências no final. E como toda em toda obra, seja ela biografia ou não, o autor precisou priorizar alguns pontos para aprofundamento. Nesse caso, foram priorizados os últimos dez anos de vida do Comandante Ernesto Che Guevara. Os anos em que conheceu o caudilho Fidel Castro, fez a Revolução em Cuba e por lá viveu e foi funcionário do governo, suas excursões pela URSS – e sua progressiva desilusão para com ela -, sua passagem pela África e sua tentativa de iniciar a Revolução por toda a América Latina pela Bolívia, e sua morte, por execução em La Higuera.

O trabalho de Castañeda é primoroso. O autor utilizou fontes documentais e bibliográficas, entrevistas, relatos de amigos, companheiros, familiares, os relatos do próprio Che e outras biografias já escritas, para escrever sua obra. Em várias passagens confrontou as fontes para demonstrar as diversas versões para a vida do mito. Ele ainda comentou sobre a versão oficial defendida por Cuba e da impossibilidade (pelo menos até a escritura de seu livro) de se consultar a documentação cubana, bem guardada em seus arquivos secretos (o que me lembra os nossos arquivos da Ditadura, tão bem fechados mesmo depois de duas décadas de “democracia”). E todas as passagens da vida de Che são muito bem contextualizadas histórica, econômica e socialmente.

Não há como não se encantar com a dedicação e a obstinação de Guevara. Depois de ler essa biografia a admiração que sentia pelo homem que sonhou um mundo melhor e tentou, repetidas vezes, tornar seu sonho realidade, cresceu muito. Esse livro é para todos que gostam de História, que admiram Che e também para todos que sonham um mundo mais justo.

Che Guevara imortalizado por Alberto Korda

Che Guevara – A vida em vermelho
Jorge G. Castañeda
Editora Companhia das Letras
536 páginas
Skoob | Submarino
[xrr rating=4/5]

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Fevereiro, cujo objetivo é ler uma biografia.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês.

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Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

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Cat lady, bookworm, roller derby, vegan, professora de história, amante de histórias. apaixonada por cinema, séries e tem uma baita queda por histórias de zumbis.

13 comments / Add your comment below

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  1. Báh Dani que vontade de ler essa biografia. Tu tens toda razão evoca a maturidade necessária para a leitura de algumas obras, esse é um aspecto que sempre ressalto, existem obras que só vão tocar o leitor que já tem uma bagagem literária, histórica e cultural que o permita compreender a complexidade da temática. É claro que essa Dani versão 2011 já tem essa bagagem né? Isso se percebe claramente nesta resenha ótima.
    estrelinhas coloridas…

  2. Gostei quando tocaste no ponto da maturidade do leitor. Para apreendermos o sentido de uma leitura, além de várias releituras, é preciso experiência de vida. Taí uma biografia que pode muito me inspirar…valeu a dica! Excelente resenha.

    Beijocas

    1. @Vivi, muito obrigada!

      Biografias são muito interessantes nesse aspecto, as complexidades de seus personagens reais são muitas e acho necessária certa maturidade para apreender pelo menos fragmentos…

      Beijos

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