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Édipo Rei, o texto trágico de Sófocles

Édipo Rei

Sou o tipo de leitora que lê peças de teatro. Muitos não gostam, acham difícil, truncado, estranho e tantos outros adjetivos que não há espaço para listá-los todos. Eu entendo, de verdade. Mas reconheço minha peculiaridade. Comecei lendo este espécime literário porque fazia teatro na escola e para apresentar um “espetáculo” (vamos combinar que teatro na escola não monta espetáculo, no máximo coloca um bando de adolescentes num palco e eles que se virem – no bom sentido, é claro) é preciso decorar o texto. Ah o texto teatral é tão bacana. Uma simples indicação do falante e o discurso corre solto.

Depois me apeguei ao hábito. Parei de tentar atuar, mesmo após me aventurar em vôos mais longínquos com o fim do Ensino Médio, mas reconhecendo minha falta de talento parei de tentar. Entretanto nunca parei de ler textos de teatro. E nesse coração de mãe, onde sempre cabe mais um livro, esses textos tão especiais sempre encontram abrigo.

Assim foi com um texto grego, uma tragédia de Sófocles. Aquela que é o modelo para toda a tragédia escrita posteriormente, aquela que inspirou grande parte do trabalho de Freud e seu famoso Complexo de Édipo, Édipo Rei. Nesse magnífico texto (que eu obviamente li traduzido para o português, porque o meu grego anda enferrujado HAHA!) temos um Rei, Édipo, que tenta descobrir o assassino de seu antecessor e marido de sua atual esposa. Acontece que a tragédia está inserida em um contexto mitológico, ou seja, existe toda uma narrativa mitológica para o Rei Édipo, desde seu nascimento até sua morte, que segue com seus descendentes. Para ler o texto de Sófocles talvez seja interessante conhecer essa narrativa mitológica. E digo talvez porque eu realmente não saberia dizer se ela faz falta ou não na hora da leitura, pois eu a conhecia de antemão.

A tragédia de Édipo, a condição trágica de sua existência, é dada pelo mito. A contradição entre a possibilidade da ação e a condição de refém do destino (Moira) vigora na tragédia. E a noção de encruzilhada é bastante importante para entender Édipo. Ele está constantemente em um encruzilhada onde o planejamento divino e o humano são opostos. No início do texto de Sófocles é possível perceber um Édipo arrogante, que se coloca acima dos Deuses, superior ao próprio destino, pois ele sabia da profecia que regia sua vida – mataria o pai e casaria com sua mãe – e não a viu concretizada quando soube da morte de seu pai na sua cidade natal (Corinto) que abandonara a fim de fugir do destino. Ele não matou o pai, ele ganhara. No entanto, o desfecho da tragédia o transforma no mais infame dos homens. A extensão e a intensidade dessa transformação de Édipo potencializa, entre outras coisas, a catarse. 

Não quero ser estraga prazeres, mas esse texto é milenar e diversas vezes foi adaptado, comentado, referenciado e tantos outros ados, então eu posso dizer que a profecia se concretiza e o primeiro momento trágico da peça é quando ele se descobre assassino de Laio, seu antecessor em Tebas (ele o matou em uma encruzilhada sem saber que era o Rei Laio de Tebas. O segundo momento trágico é a descoberta de que Laio era seu pai e sua esposa é também sua mãe, seus filhos, portanto, são filhos dele com a própria mãe. Quando se descobre assassino, filho e esposo, temos o ápice da tragédia. E como toda a ação traz consequências para ele e para os outros, o conhecimento da concretização da profecia faz com que Jocasta (a mãe e esposa) suicide-se e Édipo fure os próprios olhos, pois cego não poderia encarar o pai e a mãe/esposa na morte. Édipo tentava fugir de seu destino, mas foi diretamente ao encontro dele ao sair de Corinto imaginado que seu pai e mãe verdadeiros foram os que o criaram.

Outro elemento que me chamou muito a atenção durante a leitura de Édipo Rei foram as palavras, as escolhas das palavras e os seus lugares, como as palavras e seus conceitos buscam as coisas, os referentes no mundo. Em um primeiro momento pai, mãe, filho, marido e esposa, por exemplo, são palavras com um significado, que ocupam um lugar que é considerado o correto. Já as palavras parricídio, assassino e incesto estão a procura de um lugar onde possam se encaixar. Mas o momento trágico desloca essas palavras, as primeiras perdem sentido, perdem a referência e as outras posicionam em seus devidos lugares.

Em Édipo Rei o leitor (que pode ser também espectador, no caso de uma montagem teatral) ao acompanhar as encruzilhadas de Édipo, não o condene, não o veja apenas como um criminoso, no qual é possível até criar empatia por ele devido ao trágico. Apesar de um texto curto, de leitura razoavelmente rápida, é também uma leitura densa e que traz reflexões muito interessantes para pensarmos o mundo. Altamente recomendado. Não se acanhe pelo formato, aproveite o que ele tem de melhor, o texto.

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