Orgulho e preconceito, de Jane Austen

Orgulho e preconceito - Jane Austen
Orgulho e preconceito - Jane Austen

Orgulho e Preconceito é considerada a obra que inaugura o romance moderno na Inglaterra. E coube a uma mulher, em uma sociedade conservadora onde o poder de escolha e direitos que hoje são considerados inalienáveis ao gênero eram limitadíssimos, escrever tal romance.

Por se tratar de um clássico, pressupõe-se que a grande maioria das pessoas conheça. Creio que não se possa fazer tal generalização, pois quando falamos em Brasil o número de leitores é muito pequeno e menor ainda é o número de leitores que se interessam pelo gênero. Eu mesma, que sempre gostei muito de literatura e estou sempre em busca de novos títulos para devorar fui conhecer a obra pouco tempo atrás. Graças ao cinema. E não tenho vergonha de afirmar isso, pois um dos papéis que as adaptações cumprem é o de divulgação de obras literárias (mesmo os clássicos).

Vamos ao que interessa: a narrativa de Jane Austen se passa no mundo em que ela mesma vive, a Inglaterra do século XVIII, e trata da trajetória de uma família comum e bastante peculiar ao mesmo tempo. A família Bennet é composta por cinco filhas criadas com o único propósito de se casar, fato comum para a época. Entretanto, essas cinco moças tinham outros atributos além da beleza: podemos falar na inteligência para ver e compreender o caráter por trás das palavras e do rígido código de cordialidade imposta pela política dos bons costumes.

Com a chegada de moços ricos e socialmente bem colocados à região de Longburn (onde os Bennet residem) cria-se certo clima de expectativa. As irmãs, ávidas por casamento (algumas mais do que outras), comparecem a recepção preparada. Em apneas um baile uma série de relações são criadas, Mr. Bingley cai nas graças de Miss Jane enquanto que Mr. Darcy se mostra orgulhoso demais para cair no agrado das famílias que vivem na região, o que gera um clima de intriga entre as famílias locais (em especial os Bennet) e o “forasteiro”.

A história de relacionamentos, ciúmes, encontros, desencontros e disputas é bastante comum, mas a narrativa é delicada e preocupada em destrinchar a sociedade em que a própria autora está inserida. Cada gesto, cada fala possui diversos significados que juntos compõem um dos retratos mais interessantes e bem construidos daquela Inglaterra.

É importante perceber que ao olharmos com olhos contemporâneos para o mundo que ela nos conta não vamos encontrar uma narrativa feminista, que faz a denúncia da condição da mulher em uma sociedade machista. Mas se, ao contrário, tentarmos não cair em anacronismo, percebermos como ela trata (sem a alcunha de nenhum feminismo) a condição da mulher e principalmente das relações das elites enriquecidas pelo comércio ou por atividades liberais com a  nobreza aristocrática que dita os códigos de conduta e as relações entre as famílias.

Sem cair no dualismo os pobres contra a nobreza enriquecida, notamos um panorama histórico preciso e cheio de nuances de como a estrutura social estava colocada: burguesia tentando espaço nas altas rodas da sociedade, sofrendo o preconceito de uma nobreza cada vez mais pobre que precisava do dinheiro dessa burguesia e que, no entanto, hesitava em abrir espaço para os novos ricos. A questão do casamento serve como liga entre essas camadas que dependiam uma da outra – uma precisava do dinheiro, a outra precisava do status.

Além de uma obra original, única e com uma delicadeza ímpar, é impossível não se identificar com os protagonistas. Cheguei a sonhar com Mr. Darci. Agora falta prestigiar as adaptações realizadas a partir da obra mais famosa de Jane Austen. Filme, série e uma versão literária que incluem zumbis. Tudo já está devidamente colocada em minha lista.

Nota: 5
(de 0 a 5, sendo:0 – Péssimo; 1 – Ruim; 2 – Regular; 3 – Bom; 4 – Muito bom; 5 – Excelente)

Esta resenha faz parte do projeto Desafio Literário 2010 proposto pelo blog Romance Gracinha e corresponde ao mês de Março, cujo objetivo é ler um clássico da Literatura universal.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês.

E confira também os livros que li até agora para o desafio:

JaneiroQuincas Borba (Machado de Assis)

FevereiroAs Crônicas de Nárnia Volume Único (C. S. Lewis)

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24 comments / Add your comment below

  1. Pingback: Retrospectiva Literária 2010 | trecos & trapos
  2. Ótima resenha, eu tinha comprado uma edição da Landmark mas me irritei com a tradução recheada de erros e passei pra frente num sebo. Vou tentar pegar essa edição da L&PM.
    Quero ler o livro para daí então ver as adaptações, quanto ao com zumbis, por mais tentadora que a idéia possa ser, falaram que não é la essas cosias.

  3. Oi, Daniela,

    Sua resenha está excelente!
    Você disse tudo o que gostaria de ter dito e aqui reproduzo um parágrafo seu:
    “A história de relacionamentos, ciúmes, encontros, desencontros e disputas é bastante comum, mas a narrativa é delicada e preocupada em destrinchar a sociedade em que a própria autora está inserida. Cada gesto, cada fala possui diversos significados que juntos compõem um dos retratos mais interessantes e bem construidos daquela Inglaterra”.

    Talvez sejam estes detalhes que me fascinam no estilo narrativo da Jane Austen – realmente ela vai ‘tecendo o texto de maneira tão delicada’ e nós leitores vamos criando imagens mentais daquela época. Pelo menos é assim que acontece comigo. Daí o meu fascínio. Li Persuasão e gostei muito também.

    Feliz Páscoa,

    1. Oi @Driza.

      Muito obrigada pelo comentário.

      Eu amei o livro, foi o melhor de todos que li para o Desafio Literário até agora.

      Estou louca para ver todas as adaptações para TV e a cinematográfica!

      Beijos e volte sempre. 🙂

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