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Sora Dani Vida de estudante

Professora Daniela? – O que aprendi e o que espero da (e na) sala de aula.

Foram alguns anos esperando até que chegasse finalmente a hora derradeira. Pode parecer exagero, mas desde o momento em que decidi o curso que faria na universidade eu sabia que a hora de dar aula seria esperada com ansiedade. Agora, mais perto do que nunca de pisar em uma sala de aula experimentando o outro lado, uma série de perguntas afloram incessantemente. O que fazer? Como fazer? Será que eu consigo? Será que eu tenho competência para ser professora? Para ser professora de História? O ensino de história na escola serve para que, afinal? São tantas perguntas e poucas respostas.

Ensinar História é uma tarefa de grande responsabilidade. A história na escola não pode ser definida da mesma maneira como na academia. Ela tem propósitos e metodologias próprias. A dinâmica da sala de aula de um professor do ensino básico é muito diferente da dinâmica de um professor em uma sala de aula universitária. E aqui não existe nenhuma tentativa de qualificar mais um ou outro, são apenas distintos. A história na escola tem um propósito diferente.

O ensino da História na escola tem, a meu ver, o dever de instrumentalizar as crianças e adolescentes para que eles possam compreender a sociedade em que vivem e ler o mundo ao seu redor. O ensino de história deve também possibilitar ao aluno o entendimento e a interpretação da história a partir de conceitos e poder se enxergar não como um expectador do passado, mas como um ator do presente que olha para o passado a partir daquilo que lhe é mais próximo e palpável. E acima de tudo o ensino de História deve incentivar o pensamento crítico e autônomo e ainda dar algumas bases para que o aluno chegue a suas próprias conclusões a respeito do passado e, porque não, do presente.

Sentindo todo o peso que tamanha responsabilidade traz, os medos e anseios tornaram-se ainda mais proeminentes no decorrer dos dias. A espera pelo momento em que finalmente porei os dois pés em uma sala de aula experimentando como é estar do outro lado, do lado em que não serei a aluna e sim a professora, se torna uma sucessão de medos. Medo de não ter competência para ensinar, medo de não ter autoridade suficiente diante de uma turma de 40 crianças, medo de perceber que eu não nasci para isso e seria mais competente atendendo telefone ou servindo café.

Ainda tem o medo que sinto por antecipação pela dificuldade, que aparecerá em um futuro próximo, de abarcar todo o conhecimento adquirido no curso e ao longo da minha trajetória de vida e traduzir isso de forma que eu possa expressá-lo e que todos entendam o que quero dizer. Além dos medos relacionados à prática cotidiana na profissão que escolhi seguir, ainda penso nas dificuldades ligadas à política educacional e a forma como o ensino é tratado pelas políticas públicas do governo estatal e federal.

Portanto, esse é, sem dúvida, o momento de avaliar tudo o que aprendi até hoje, dentro e fora da universidade e poder resgatar aprendizados que possam ser úteis na experiência de lecionar. Dentre os tantos que poderia enumerar uma habilidade em especial me vem à cabeça e que pode ajudar na hora de estar em frente a uma turma pela primeira vez: desembaraço ao falar para o público. Adquiri a capacidade de me sentir confiante diante de muitas pessoas nos anos em que me dediquei ao estudo das artes cênicas, que, além disso, também pode proporcionar soluções interessantes para resolver as situações que aparecem ao longo da relação que estabelecer com a turma.

Com a preparação que tive ao longo dos anos na universidade somada a vivência como aluna na própria escola e os outros tantos aprendizados que tive durante minha vida penso que devo estar preparada para enfrentar uma turma pela primeira vez e planejar uma boa aula (mesmo que isso não signifique uma execução notável). Talvez falte um pouco de confiança, mas isso eu creio que ganharei com a prática. A preparação que acontece todos os dias. Do primeiro dia em uma sala de aula até o último. E mesmo nesse, ela não é completa. O acúmulo do saber docente é processual e contínuo, não existe um momento em que ele será completo. Pisar em uma sala de aula exige conhecimento da História, mas também exige uma série de outras características que se adquire com a própria experiência.

As realidades e os discursos que recheiam a sala de aula precisam ser conhecidos e contemplados no planejamento das atividades escolares. O que ultrapassa o conhecimento do conteúdo, da matéria. E por falar em conteúdo, a ânsia de “vencer o conteúdo” precisa ser equilibrada. As escolhas dos temas que serão ministrados em sala de aula não precisam obedecer a uma linearidade, eles podem ser trabalhados de diferentes formas, agrupados por temáticas ou a partir de conceitos.

O professor ou professora precisa encontrar uma maneira de contemplar as inquietações dos estudantes, as notícias mais relevantes da atualidade (sobre política, economia e até mesmo ecologia entre tantas outras que poderia citar), motivar a noção de sujeito histórico, de ator, partícipe da história. É preciso também incorporar no processo do ensino e aprendizagem outras fontes, problematizar e possibilitar o confronto e o debate, para a motivação da experiência histórica, cultural e toda a sua complexidade.

Para dar conta do emaranhado de pensamentos e vontades que teci até agora é preciso estabelecer alguns objetivos, políticos e pedagógicos. E eles se misturam e se somam na prática e no cotidiano escolar. Como objetivo político, pretendo ter uma prática pedagógica libertária, devido minha própria militância política (e para isso é preciso também um pouco mais de estudo sobre as experiências anarquistas). Pretendo inserir espaços para a discussão social durante as aulas e me comprometer com os estudantes.

Por objetivos pedagógicos compreendo aqueles mais imediatos, relativos à dinâmica em sala de aula. Nesse sentido almejo incentivar o pensamento autônomo e crítico da sociedade e das relações sociais e uma compreensão própria da realidade. Para chegar a este resultado pretendo trabalhar conceitos e teoria, levar em consideração as necessidades e conhecimentos trazidos pelos alunos, inserir a pesquisa no ambiente escolar, incentivando os alunos a descobrirem formas de se apropriar dos conhecimentos adquiridos e trabalhar espaços diferenciados, sair da sala de aula e usar os próprios espaços também como fonte e discutir questões como patrimônio, pertencimento e identidade.

Pode parecer ambição, idealismo, uma visão romântica, mas não vejo problemas nisso. Quero mesmo poder ver a sala de aula como um ambiente em que os alunos terão liberdade para mudar. Não mudar o mundo, mas mudarem a si próprios. Se for com meu auxílio tanto melhor.

Este texto é o produto final de minhas reflexões na disciplina de Introdução à Prática e  Estágio de História no curso de História que faço na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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