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A Última Trincheira, de Fábio Pannunzio

A Última Trincheira

A Última Trincheira é um livro sobre um assunto delicado, pouco falado e rodeado de preconceitos: as Forças Armadas Revolucionárias Colômbia–Exército do Povo (em castelhano Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia–Ejército del Pueblo), conhecida com FARC. Muita gente já ouviu falar das FARC e provavelmente matérias jornalísticas na televisão ou em revistas e jornais impressos preconceituosas e marcadas por uma parcialidade velada (afinal todo jornal ideologicamente conservador gosta de proclamar aos quatro ventos que é imparcial) e carregados de um tom acusador.

A intenção de Fábio Pannunzio em seu livro é justamente desmistificar e dispersar essa nuvem ideológica e preconceituosa que encobre as FARC. Em nenhum momento ele defende o grupo guerrilheiro da Colômbia, no entanto ele deixa claro as razões da existência de uma guerrilha não oficial no país e os motivos pelos quais ela se mantém por décadas. O jornalista conseguiu entrar em um acampamento, conversou com cocaleiros, tentou abordar o assunto mais delicado para os membros da guerrilha: a coca (e consequentemente o narcotráfico). Ele escreveu sobre a contrapartida do governo colombiano à guerrilha, o Exército e os grupos paramilitares.

Seu livro surgiu de uma reportagem e é também ficção. Ele mistura histórias reais que ele próprio vivenciou, com nomes, situações e outras histórias que são ficção, mas baseadas em histórias reais de colombianos vivendo na miséria e com medo. Eu confesso que antes de ler eu pensava se tratar de um livro massante, chato e também carregado dos preconceitos que já mencionei, entretanto fiquei surpresa logo nas primeiras páginas com a fluidez do texto de Pannunzio e a maneira ao mesmo tempo simples, didática e séria com que ele trata esse assunto importantíssimo para conhecer a história e a realidade latino-americana.

Esse é um livro que recomendo a todos. pois ele é esclarecedor e os relatos são bastante emocionantes. E o final dele me deixou com aquele nó na garganta que sempre aparece quando me deparo com alguns acontecimentos de nossa História.

A Última Trincheira
Fábio Pannunzio
219 páginas
Editora Record
Skoob | Submarino

Rating: ★★★★☆ 

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Maio, cujo objetivo é ler um livro-reportagem.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês. Ou descubra quais foram as minhas escolhas.

Participe, comente, leia.

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Aproveita e segue a equipe do Desafio Literário 2011 no twitter também:

@vivi, @danihaendchen, @queromorarlivr e eu, @clandestini.

Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

Fevereiro
Che Guevara – a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda
O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

Março
As Brumas De Avalon Livro 1 – A Senhora Da Magia, de Marion Zimmer Bradley
As Brumas De Avalon Livro 2 – A Grande Rainha, de Marion Zimmer Bradley

Abril
O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams

Che Guevara – A vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Che Guevara - a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Escolher uma biografia é escolher ler sobre um personagem real do qual queremos conhecer mais sobre sua vida. Nesse sentido, a escolha recai mais sobre o personagem em si do que ao livro que poderemos ler, visto que um mesmo sujeito pode ter sua vida biografada por mais de um autor. Eu não li muitas biografias ao longo de minha vida, e não estou acostumada com a linguagem utilizada (se é que existe um padrão no gênero), e me deparar com uma biografia de um personagem tão enigmático quanto mitológico para a juventude do século XX foi uma bela surpresa.

Na verdade eu comecei a ler Che Guevara – A Vida em Vermelho, de Jorge G. Castañeda, em 2000, e no auge dos meus 16 anos não tive maturidade e conhecimento histórico suficientes para aguentar a densa leitura que a biografia requer. Retomando uma leitura abandonada há mais de dez anos pude finalmente compreender isso. Não que hoje eu seja um exemplo de maturidade e sabedoria, mas minha experiência de vida permitiu uma compreensão maior do texto de Castañeda, e, porque não, da vida de Che.

Não foi uma leitura fácil: a vida de alguém como Che é difícil de ser sintetizada e suavizada. Pelo contrário, não há palavras que definam a intensidade e a paixão pela revolução do filho da Dona Célia. O Argentino que percorreu o mundo, participou de uma das mais emblemáticas Revoluções do século XX, tentou repetir o feito na África e iniciar a Revolução por toda a América Latina a partir da Bolívia deixou como herança aos povos subjugados pelo Imperialismo, aos jovens rebeldes, aos que lutam por uma sociedade mais justa, a esperança. Foi transformado em mito antes mesmo de sua morte, mas foi ela quem trouxe à juventude dos anos sessenta (os anos da rebeldia, dos Beatles, da luta pela paz) um símbolo que não morreu jamais.

O calhamaço de 536 páginas é dividido em 11 capítulos mais as notas e referências no final. E como toda em toda obra, seja ela biografia ou não, o autor precisou priorizar alguns pontos para aprofundamento. Nesse caso, foram priorizados os últimos dez anos de vida do Comandante Ernesto Che Guevara. Os anos em que conheceu o caudilho Fidel Castro, fez a Revolução em Cuba e por lá viveu e foi funcionário do governo, suas excursões pela URSS – e sua progressiva desilusão para com ela -, sua passagem pela África e sua tentativa de iniciar a Revolução por toda a América Latina pela Bolívia, e sua morte, por execução em La Higuera.

O trabalho de Castañeda é primoroso. O autor utilizou fontes documentais e bibliográficas, entrevistas, relatos de amigos, companheiros, familiares, os relatos do próprio Che e outras biografias já escritas, para escrever sua obra. Em várias passagens confrontou as fontes para demonstrar as diversas versões para a vida do mito. Ele ainda comentou sobre a versão oficial defendida por Cuba e da impossibilidade (pelo menos até a escritura de seu livro) de se consultar a documentação cubana, bem guardada em seus arquivos secretos (o que me lembra os nossos arquivos da Ditadura, tão bem fechados mesmo depois de duas décadas de “democracia”). E todas as passagens da vida de Che são muito bem contextualizadas histórica, econômica e socialmente.

Não há como não se encantar com a dedicação e a obstinação de Guevara. Depois de ler essa biografia a admiração que sentia pelo homem que sonhou um mundo melhor e tentou, repetidas vezes, tornar seu sonho realidade, cresceu muito. Esse livro é para todos que gostam de História, que admiram Che e também para todos que sonham um mundo mais justo.

Che Guevara imortalizado por Alberto Korda

Che Guevara – A vida em vermelho
Jorge G. Castañeda
Editora Companhia das Letras
536 páginas
Skoob | Submarino

Rating: ★★★★☆ 

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Fevereiro, cujo objetivo é ler uma biografia.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês.

Participe, comente, leia.

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@vivi, @danihaendchen, @queromorarlivr e eu, @clandestini.

Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

Isabel Allende

Eu nunca consegui ler Isabel por inteiro. Falta de oportunidade, apenas isso. Porque adoro a história de vida dessa mulher e sou uma espécie de masoquista da leitura. Já li muita pessoas comentando sobre o tom de tragédia de suas obras e como isso faz com que elas se afastem de Isabel. Já eu quero me aproximar, experimentar um pouco dessa tristeza e da tragédia que ela escreve, descreve e compartilha com o leitor. Simpatizo com as tragédias mais do que com as histórias felizes.

Isabel Allende

Isabel Allende

Quem, afinal, é Isabel Allende?

A Wikipédia ajuda. E biografias da autora não faltam pela rede:

Nasceu em 1942, em Lima, Peru, mas costuma dizer que é chilena por formação e convicção. Segundo dados fornecidos pelas editoras, é a escritora latino-americana mais lida do mundo. Dada sua história de vida repleta de grandes acontecimentos – como o golpe militar chileno em 1973 (é sobrinha do presidente Salvador Allende) e a morte da filha, Paula, em 1992 –, procura viver intensamente cada minuto da vida. “Eu não confio mais no amanhã, na minha cabeça, tudo pode estar perdido em um minuto”, afirma. Os mortos e os espíritos são um tema importante em seus romances, como A casa dos espíritos (1982) e De amor e sombras (1984). Sua carreira se deve em grande parte a Pablo Neruda, que a aconselhou a ser escritora, porque como jornalista “eres muy mentirosa”. Fonte: Tiro de Letra

Confissões de um poeta

Confesso que Vivi - Pablo Neruda

Confesso que Vivi - Pablo Neruda

Comecei a ler Pablo Neruda logo por um livro de memórias, eu que nunca li sequer um de seus poemas. O poeta comunista conta em Confesso que Vivi sua trajetória de vida desde sua infância no sul do Chile até o 11 de setembro mais marcante da história recente da América Latina: o golpe que derrubou e matou Salvador Allende na década de 1970 no Chile.

E como esse poeta passou por coisas nessa vida. Trabalhou nos muitos consulados chilenos pelo oriente, na Espanha (onde presenciou um dos maiores e mais emblemáticos conflitos do século XX, a Guerra Civil Espanhola), passeou por outros países da Europa e da América Latina. Foi Senador do Chile e candidato à presidência do mesmo país. E muitas outras coisas mais.

O livro é dividido em partes temáticas, ou seja, a cada parte ele trata de um tema diferente de uma fase de sua vida.

O Jovem Provinciano: parte em que o autor narra sua infância, a presença constante da chuva e suas primeiras experiências poéticas no sul chileno. E sua narrativa é bastante poética, de uma sensibilidade ímpar, suas descrições mostram as primeiras e grandes impressões do mundo e das pessoas que o rodeavam.

Perdido na Cidade: quando Neruda vai para a cidade grande,  em Santiago do Chile e incorre em novas descobertas abandonando os bucólicos campos sulinos e publica seu primeiro livro.

Os Caminhos do Mundo e A Solidão Luminosa: a nomeação como Cônsul do Chile em Rangoon, no Oriente transforma a vida do poeta que conhece um novo mundo nos lugares remotos que vive e passa a ter uma percepção mais ampla do homem. E essas duas partes foram as que mais gostei no livro. Para quem será professor de História, as suas passagens e descrições são magníficas para se trabalhar em sala de aula quando o assunto for Imperialismo ou oriente no início do século XX. São capítulos bastante curtos descrevendo fatos, pessoas, realidades sociais dos diversos países pelos quais ele passou como Cônsul. Todos ou quase todos colônias britânicas.

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O outro 11 de Setembro

Antes de dois aviões baterem nas Torres Gêmeas no EUA, um outro 11 de setembro marcou a história da America Latina. Ambas datas são traumáticas, e ambas têm a participação dos Estados Unidos.

Em 1973 um golpe militar executado pelo general August Pinochet, preparado e financiado pelo imperialismo norte americano derruba o governo legitimo, constitucional e democraticamente eleito do Presidente Salvador Allende, provocando vários milhares de assassinatos e de prisões, o exílio de duzentos mil chilenos e uma feroz ditadura que durou 17 anos.

E a foto mostra o assalto e ataque dos golpistas ao Palácio de La Moneda.