O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

Há na História do Brasil um período que ainda é doloroso para milhares de mães, pais, esposas, esposos, filhos e filhas, para amigos e companheiros que perderam entes queridos para a repressão. Os anos de Ditadura Militar são uma ferida que não fecha e da qual não podemos esquecer jamais.

Muitos homens e mulheres que viveram aquela época não estão aqui para contar suas histórias de vida, porque caíram, foram desaparecidos. Muitos que sobreviveram escondem suas memórias por medo, vergonha, ou muitos outros motivos. Outros ainda as usam ou as negam como promoção política. Felizmente alguns sobreviventes possuidores de habilidade com as palavras nos proporcionam relatos riquíssimos que nos servem de guia, de máquina do tempo, de lembrete, de um tempo turbulento, violento e doloroso da nossa História. Esse último é o caso do escritor, jornalista e político brasileiro Fernando Gabeira – que nasceu em Juiz de Fora no dia 17 de fevereiro de 1941.

Gabeira escreveu em 1979 (antes mesmo de findar a Ditadura de Segurança Nacional aqui em terras tupiniquins) um livro autobiográfico de memórias sobre sua participação na luta armada contra o Regime militar brasileiro no MR-8 – dos primeiros anos da Ditadura, desde 1964, ano do golpe, até 1970, quando sai do país para o exílio. O que é isso, companheiro? é também uma reflexão de suas ações e posições políticas e, ademais, uma reflexão sobre as organizações de esquerda brasileiras.

Em curtos capítulos, ele nos conta, em fragmentos, passagens de sua vida como guerrilheiro urbano. Nos dois último capítulos, mais longos, ele dedica a duas importantes passagens de sua vida no período: o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick e sua posterior prisão nos cárceres da Ditadura. Nesse último capítulo ele narra a convivência com outros presos políticos e presos comuns, da tortura que ele e seus companheiros sofreram, das diversas prisões por onde passou até chegar a sua libertação, com mais 39 presos, na troca pelo embaixador da Alemanha exigida por outro grupo da esquerda.

As passagens da vida de Gabeira são narradas por ele com traços de ironia (principalmente nos primeiros capítulos, mais leves) e um tom de conversa com o leitor. Muitos processos históricos e políticos emergem para uma reflexão aprofundada feitas ora pelo narrador, ora pelo leitor (pelo menos foi o que ocorreu comigo durante a leitura). Considero que esse é um livro muito importante para compreendermos a História recente do Brasil e principalmente para que não esqueçamos da barbárie cometida contra o povo brasileiro nas duas décadas de Ditadura Militar.

Fico feliz de finalmente ter lido O que é isso, companheiro?, recomendo a todos a leitura e a reflexão a que nos leva. Seu livro foi transformado em filme pelo cineasta Bruno Barreto em 1997, o qual ainda preciso ver. A memória daqueles anos são extremamente importantes para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!

Fernando Gabeira em foto de 2006 de Tasso Marcelo/AE

O Que É Isso, Companheiro?
Fernando Gabeira
261 páginas
Editora Nova Fronteira
Skoob | Submarino
[xrr rating=4/5]

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Fevereiro, cujo objetivo é ler uma biografia.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês. Descubra quais foram as minhas escolhas.

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@vivi, @danihaendchen, @queromorarlivr e eu, @clandestini.

Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

Fevereiro
Che Guevara – a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Che Guevara – A vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Che Guevara - a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda

Escolher uma biografia é escolher ler sobre um personagem real do qual queremos conhecer mais sobre sua vida. Nesse sentido, a escolha recai mais sobre o personagem em si do que ao livro que poderemos ler, visto que um mesmo sujeito pode ter sua vida biografada por mais de um autor. Eu não li muitas biografias ao longo de minha vida, e não estou acostumada com a linguagem utilizada (se é que existe um padrão no gênero), e me deparar com uma biografia de um personagem tão enigmático quanto mitológico para a juventude do século XX foi uma bela surpresa.

Na verdade eu comecei a ler Che Guevara – A Vida em Vermelho, de Jorge G. Castañeda, em 2000, e no auge dos meus 16 anos não tive maturidade e conhecimento histórico suficientes para aguentar a densa leitura que a biografia requer. Retomando uma leitura abandonada há mais de dez anos pude finalmente compreender isso. Não que hoje eu seja um exemplo de maturidade e sabedoria, mas minha experiência de vida permitiu uma compreensão maior do texto de Castañeda, e, porque não, da vida de Che.

Não foi uma leitura fácil: a vida de alguém como Che é difícil de ser sintetizada e suavizada. Pelo contrário, não há palavras que definam a intensidade e a paixão pela revolução do filho da Dona Célia. O Argentino que percorreu o mundo, participou de uma das mais emblemáticas Revoluções do século XX, tentou repetir o feito na África e iniciar a Revolução por toda a América Latina a partir da Bolívia deixou como herança aos povos subjugados pelo Imperialismo, aos jovens rebeldes, aos que lutam por uma sociedade mais justa, a esperança. Foi transformado em mito antes mesmo de sua morte, mas foi ela quem trouxe à juventude dos anos sessenta (os anos da rebeldia, dos Beatles, da luta pela paz) um símbolo que não morreu jamais.

O calhamaço de 536 páginas é dividido em 11 capítulos mais as notas e referências no final. E como toda em toda obra, seja ela biografia ou não, o autor precisou priorizar alguns pontos para aprofundamento. Nesse caso, foram priorizados os últimos dez anos de vida do Comandante Ernesto Che Guevara. Os anos em que conheceu o caudilho Fidel Castro, fez a Revolução em Cuba e por lá viveu e foi funcionário do governo, suas excursões pela URSS – e sua progressiva desilusão para com ela -, sua passagem pela África e sua tentativa de iniciar a Revolução por toda a América Latina pela Bolívia, e sua morte, por execução em La Higuera.

O trabalho de Castañeda é primoroso. O autor utilizou fontes documentais e bibliográficas, entrevistas, relatos de amigos, companheiros, familiares, os relatos do próprio Che e outras biografias já escritas, para escrever sua obra. Em várias passagens confrontou as fontes para demonstrar as diversas versões para a vida do mito. Ele ainda comentou sobre a versão oficial defendida por Cuba e da impossibilidade (pelo menos até a escritura de seu livro) de se consultar a documentação cubana, bem guardada em seus arquivos secretos (o que me lembra os nossos arquivos da Ditadura, tão bem fechados mesmo depois de duas décadas de “democracia”). E todas as passagens da vida de Che são muito bem contextualizadas histórica, econômica e socialmente.

Não há como não se encantar com a dedicação e a obstinação de Guevara. Depois de ler essa biografia a admiração que sentia pelo homem que sonhou um mundo melhor e tentou, repetidas vezes, tornar seu sonho realidade, cresceu muito. Esse livro é para todos que gostam de História, que admiram Che e também para todos que sonham um mundo mais justo.

Che Guevara imortalizado por Alberto Korda

Che Guevara – A vida em vermelho
Jorge G. Castañeda
Editora Companhia das Letras
536 páginas
Skoob | Submarino
[xrr rating=4/5]

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Fevereiro, cujo objetivo é ler uma biografia.

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Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato