Memória com cheiro

Eu não sei como é para as outras pessoas, mas eu tenho algumas memórias que associo sempre que sinto determinado cheiro. Ou ainda quando lembro de algo sinto o cheiro relacionado.

É assim com uma das minhas memórias de infância. Quando eu tinha uns seis anos eu morava em Caxias do Sul. E minha vó morava comigo. Ou eu, minha mãe e meu irmão morávamos com minha avó. Tanto faz. Lembro de uma guloseima especial que era resultado de uma pequena travessura.

Eu tinha uma espécie de ritual infantil. Uma pequena transgressão que cometia todas as tardes. Quando minha avózinha ia dormir, fazer a sesta costumeira depois do almoço, ela ouvia um programa em alguma rádio AM com uma música instrumental bem característica. Esse era o sinal de que a cozinha estava vazia. Esperando minha entrada sorrateira.

E a travessura não era nada demais. eu simplesmente assaltava o armário. Pegava uma fatia dos deliciosos pães caseiros feitos por minha vó e derramava uma porção bem generosa de mel sobre a o pão. Eu sempre sinto o cheiro inconfundível do mel quando escuto a tal música e lembro das travessuras de criança. Quase sinto o gosto do pão feito em casa. Sovado. Era realmente delicioso.

Hoje em dia minha vó já não pode mais fazer seu delicioso pão, bem como outras tantas comidas que ela costumava preparar devido ao seu estado de saúde. Mas todas elas estão lá, ao lado do pão com mel, bem guardadas na memória.

Sinto saudade todos os dias do tempo em que eu a via preparando seus pães, bolos, doces e outras tantas delícias. Seu legado ficou com minha mãe, que aprendeu muitas receitas. e aospoucos vou aprendendo também. Assim a culinária que eu apreciava na infância não ficará apenas na minha memória.

E o pão com mel é uma das coisas que mais gosto até hoje. Pão caseiro, de preferência. Agora o de minha mãe.