Abril rojo, de Santiago Roncagliolo

O livro de Santiago Roncagliolo é sobre um serial killer, mas é um thriller político antes de tudo. O mistério que é relatado é assustador e ao mesmo tempo cativante, pois vai além dos crimes em série e retrata a vida política e cultural do Peru do início do século XXI. Esse foi o primeiro livro de autor peruano que eu li e também o primeiro ambientado no Peru que eu tive o prazer de ter em mãos. Foi muito interessante entrar em contato com uma realidade completamente diferente, na qual a cultura indígena ainda é bastante presente no dia a dia da população e rituais católicos convivem com rituais indígenas, embora não tão pacificamente, mas lado a lado e influenciando fortemente a vida de todos.

A narrativa toma lugar em uma pequena cidade peruana, Ayacucho, nos meses de Março e Abril de 2000 e centra-se na busca por um assassino em série. O investigador é um homem comum, Félix Chacaltana Saldívar, um promotor distrital adjunto que recentemente retornou à sua cidade natal depois de mais de vinte anos de trabalho em Lima (capital do Peru). Ao se deparar com um crime terrível, precisa escrever seu relatório e mandar para outro departamento que se nega a receber o documento ao mesmo tempo que o departamento responsável por fornecer as informações necessárias dificulta a vida do procurador que acaba se transformando portanto em investigador. Nesse processo Félix acaba descobrindo algumas verdades sobre a realidade política de seu país e sobre si. O promotor descobre, entre tantos outros segredos de Estado, que o grupo Sendero Luminoso (considerado terrorista pelas Forças Armadas de seu país) ainda está em atividade, contrariando todos os pronunciamentos oficiais.

Depois do primeiro assassinato demora um pouco para que outros crimes relacionados aconteçam, o que me deixou um tanto ansiosa. A espera pelos crimes não prejudicou em absoluto o andamento da narrativa, mas no meu caso quebrou um pouco o clima da leitura, pois minha expectativa era de que o livro tratasse de assassinatos em série. E foi apenas depois da metade do livro que a expectativa se concretizou e muito sangue e membros começaram a rolar. É claro que a maneira como os acontecimentos foram narrados foi muito sofisticada e com uma trama muito bem amarrada, nada de cenas escatológicas. A tensão que o autor me deixou a cada nova descoberta e a cada novo retrocesso na investigação foi incrível, deixando a leitura mais frenética a cada página, sem, é claro, descolar o ritmo enérgico da trama política muito bem amarrada que acompanhava a busca por novas pistas.

Com sua narrativa, Santiago Roncagliolo faz uma análise da violência em muitos aspectos: a violência com que os crimes eram cometidos, a violência dos grupos Senderistas, a violência do governo, a violência das desigualdades, a violência da dominação cultural e política… A investigação leva Félix a se embrenhar cada vez mais fundo nas contradições do governo e ele precisa a todo momento enfrentar a negação do governo da violência existente no país que ele próprio testemunha. Um dos pontos interessantes da narrativa é a intersecção feita entre os crimes e as datas cristãs que antecedem a Páscoa, um tempo de morte e ressurreição para a cultura católica. A violência cometida está o tempo todo ligada e contrastando com essas celebrações que são muito tradicionais e de presença forte no calendário peruano (coisa que eu nao fazia ideia), e há uma forte conexão entre a forma como os assassinatos são realizados e o simbolismo religioso.

O protagonista Félix Chacaltana não é menos interessante do que a história que vive. No início ele parece monótono e metódico, mas conforme os fatos se apresentam para ele, é preciso reagir e tomar atitudes que não combinam com sua personalidade. Com isso ele sofre uma transformação muito interessante e mesmo sendo o investigador, deixa dúvidas de sua honestidade a respeito de suas conclusões sobre os crimes. É difícil ignorar suas peculiaridades ao mesmo tempo em que é difícil acreditar nele. Ele começa sua investigação não porque quer fazer justiça, mas porque é empurrado por uma obrigação que beira um transtorno obsessivo-compulsivo. Além disso, ele tem um fascínio bizarro por sua falecida mãe (reconstruiu o quarto dela exatamente como era antes de mudar-se para Lima, fala com as fotos e se comporta como se ela ainda estivesse viva – perturbador, não?). É terrivelmente ingênuo quando se trata do funcionamento das autoridades locais e também faz o tipo obstinado, os obstáculos colocados pelo exército para barrarem sua investigação não o impedem de seguir adiante e ele

Além do protagonista, vários personagens são introduzidos ao longo do romance e figuram a lista prováveis assassinos, colaborando para aumentar a tensão. Embora alguns desses personagens possam parecer estereotipados num primeiro momento, as circunstâncias os tornam mais profundos à medida que o narrativa avança. Uma personagem importante é Edith, uma garçonete com a qual Félix acaba se envolvendo amorosamente. A relação entre eles não é simples e a tensão do romance entre eles acompanha a investigação do promotor e culmina com cenas bastante fortes. Só o qe posso dizer é que Chacaltana sucumbe à violência que o rodeia.

O final é bastante surpreendente, mas um tanto decepcionante. Não completamente, é claro, mas o suficiente para que eu não o avaliasse melhor nas redes sociais para leitores. O livro não é uma obra prima da ficção de mistério justamente pelo final, pois a narratia como um todo é bastante metódica e cheia de amarras que garantem o estado de tensão até o final. E o que o torna um romance acima da média são as questões que emergem da narrativa: a conexão da busca pela responsabilidade moral do governo, dos indivíduos, da sociedade, a escolha entre o menor dos males e os temas históricos, políticos e religiosos com o abuso de poder e a repercussão que isso tem na vida das pessoas.

Abril Rojo
Santiago Roncagliolo
328 páginas
Editora Alfaguara (Espanha)
Goodreads
[xrr rating=3.5/5]

Desafio Literário 2012

A resenha mais atrasada de todas, mas a leitura foi feita em dia. Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2012. A resenha corresponde ao mês de Março, cujo objetivo é ler um livro sobre um Serial Killer.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês. Ou descubra quais foram as minhas escolhas.

Participe, comente, leia. Gostou da ideia? Siga o @DL_2012 no twitter. Aproveita e segue a equipe do Desafio Literário 2012 no twitter também: @vivi@danihaendchen@queromorarlivr e eu, @clandestini.

Confira as leituras feitas para o Desafio Literário 2012:

Janeiro – Literatura Gastronômica: Julie & Julia: 365 dias, 524 receitas e 1 cozinha apertada, de Julie Powell.

Fevereiro – Nome Próprio: Frankenstein, de Mary Shelley

Março – Serial Killer: Abril rojo, de Santiago Roncagliolo

O Continente vol. 2 (O Tempo e o Vento #1), de Erico Verissimo

O Continente, vol. 2No segundo volume de O Continente a saga das famílias Terra e Terra Cambará continua. Os capítulos abrangem os períodos de 1850 a 1895. Bem menos do que no primeiro tomo, que vai de 1750 a 1836 mais o ano de 1895 com O Sobrado. A estrutura do livro é a mesma do primeiro volume, trechos de O Sobrado intercalam os capítulos A Teinaguá, A Guerra e Ismália Caré. Três grandes capítulos que, ao contrário dos integrantes da primeira parte da obra, não são tão independentes e, portanto, não dariam muito certo como publicações avulsas (lembra que Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo foram lançados como livros?). O tom épico ainda é marcante, porém diferente do primeiro tomo, em que a atmosfera da narrativa era mais vibrante e vigorosa, o segundo volume possui um ritmo mais vagaroso e marcado por perfis e guerras psicológicas. No entanto, mesmo com ritmos distintos, ambos são livros incríveis e completam um ao outro perfeitamente.

O Sobrado continua relatando os dias de junho de 1895, em pleno cerco ao sobrado de Licurgo Cambará, onde seus aliados e sua família passam a base de laranja e farinha, sua esposa agoniza depois de um parto complicado, seus dois filhos ainda crianças vivem como podem, ouvindo as histórias de Laurinda – empregada, escrava liberta – e Fandango, Maria Valéria tenta esconder seu amor pelo cunhado Licurgo e se divide entre cuidar dos sobrinhos e da irmã. A velha Bibiana fica no quarto, ouvindo o vento e esperando, como sempre fez em sua vida. Os outros, moradores e “hóspedes” do sobrado esperam que os federalistas se entreguem, pois a guerra está ganha em quase todo o Estado. Os conflitos da família, a personalidade de Licurgo e as relações entre eles são elevadas a um grau extremo, devido ao confinamento. A tensão domina toda a narrativa nesses trechos. E como leitora, também aguardava ansiosa pelo fim do cerco, queria respirar aliviada junto com aqueles personagens, e o último trecho é de arrepiar, muito comovente tanto pelos acontecimentos que ele narra como pela reação a eles por parte dos diferentes personagens e suas personalidades tão distintas.

No capítulo A Teinaguá, a narrativa conta a origem da misteriosa mulher que casou com Bolívar Cambará, filho de Bibiana e do Capitão Rodrigo. Luzia Cambará é uma figura atormentada, angustiada torturada pela vida que leva e ao mesmo tempo intimida seu marido, que muito pouco lembra o pai, pois Bolívar é um homem titubeante e fechado ao contrário da personalidade valente e espontânea de seu pai. E é aqui que se descobre como o Sobrado foi construído e por quem, e como ele foi parar nas mãos da família Terra Cambará. A narrativa é pontuada por um observador de fora, o médico Carl Winter, um alemão que chegou a Santa Fé de passagem e foi ficando, ficando, ficando, até não conseguir mais ir embora. Um sujeito bem diferente dos outros moradores de Santa Fé. É através dos olhos desse médico, intelectual e viajante que muitos dos acontecimentos são narrados. Inclusive algumas questões da História do Rio Grande do Sul e dos moradores do Sobrado são relatadas em cartas que ele envia para um amigo, também alemão, que se instalou na colônia alemã de São Leopoldo. Além disso, é o médico que faz a relação entre a mulher que gera discussões infindáveis em Santa Fé a respeito de seu caráter e personalidade e a figura lendária da Teinaguá. Através de seu olhar estrangeiro o médico traça um perfil dos personagens e das situações apresentadas por quase todo o livro.

No capítulo A Guerra o foco narrativo está no dia a dia de Bolívar, Luzia e Bibiana no Sobrado. Como pano de fundo a Guerra do Paraguai, apesar dessa não ser a única guerra narrada, pois existe uma disputa surda entre Luzia e Bibiana por Bolívar, pelo Sobrado e pelo neto, Licurgo Cambará – que representa para Bibiana a expressão máxima da continuação de sua família e, por conseguinte de seu amado e falecido Rodrigo Cambará. Nessa guerra íntima eu tomei o partido de Bibiana, pois Luzia não é uma pessoa fácil de conviver, além de ser racista e de possuir uma visão de mundo que não me agrada nem um pouco. Porém, tenho de admitir que em muitas de suas falas eu tive de concordar com ela. Luzia odiava a vida naquele lugar, pois ela era o contraste de tudo aquilo que Santa Fé representava, o que não é de todo ruim (ou de todo bom, depende do ponto de vista), mas uma das questões mais marcantes que ela levanta é o machismo e o papel da mulher naquela sociedade. E nisso eu tenho de dar o braço a torcer, já que o Rio Grande do Sul tem uma História de machismo e submissão da mulher que infelizmente perdura em alguns lares gaúchos. A figura de Luzia é contraditória e gera ódio dos moradores e dos leitores (pelo menos no meu caso), mas ainda assim tem um papel fundamental para a narrativa e também para lembrar que mesmo narrado sob uma perspectiva feminina O Continente retrata uma sociedade machista.

Em Ismália Caré o salto no tempo é um pouco maior. O filho de Bolívar e Luzia, Licurgo Cambará, já cresceu e vive com a mãe e a avó no Sobrado, no meio do fogo cruzado. A disputa segue e o adolescente Licurgo sente na pele as faíscas que elas soltam. Ele vive dividido entre a vida no Sobrado e a vida no Angico, as terras da família no interior da cidade. E dividido entre e avó e a mãe, Licurgo cresce e se envolve com uma moça de nome Ismália Caré, filha dos empregados do Angico. A relação entre eles é bastante complicada, Bibiana não aceita o envolvimento de seu neto com a menina, ele próprio sabe que precisa casar com uma “moça de família”, mas o romance proibido entre eles dura até mesmo depois do casamento com a prima Alice Terra.

Maria Valéria, irmã de Alice é apaixonada por Licurgo, mas reprime o sentimento por respeito à irmã e à tia Bibiana, a grande figura de todo o livro. Se no primeiro volume Bibiana é apresentada como mulher submissa ao marido, sofrida e apaixonada, nesse tomo ela está mais madura, endurecida pela vida, passando a demonstrar sua personalidade forte e dominante, onde se tornam claras sua semelhança e afinidade com a avó Ana Terra. E Bibiana também se mostrou misteriosa, mordaz, cáustica, ferina e manipuladora quando necessário, e fez de tudo para defender a continuidade dos Terra Cambará. Na difícil decisão entre ela e Ana Terra, elejo as duas como minhas personagens preferidas nessa primeira parte da saga familiar de Erico, duas das personagens mais fascinantes da Literatura Brasileira.

O Continente vol. 2 (O Tempo e o Vento #1)
Erico Verissimo
Companhia das Letras
440 páginas
Skoob | Goodreads | Submarino
[xrr rating=5/5]

Não leu ainda O Continente volume 2? Que tal começar pela resenha do primeiro volume?

1. O Continente vol. 1 (O Tempo e o Vento #1), de Erico Verissimo

O Continente vol. 1 (O Tempo e o Vento #1), de Erico Verissimo

O Continente, volume 1, de Erico Verissimo

O primeiro volume de O Continente é a abertura da obra prima de Erico Verissimo, O Tempo e o Vento (publicado em três romances: O Continente, O Retrato e O Arquipélago – os dois primeiros possuem dois volumes, enquanto o terceiro foi dividido em três). Publicado em 1949, a intenção de Erico era escrever apenas O Continente, mas a história tão grandiosa da saga familiar que é também um microcosmo da História do Rio Grande do Sul pedia mais. E Erico nos deu de presente, alguns anos mais tarde, os dois volumes de O Retrato e os três volumes de O Arquipélago.

Reeditado inúmeras vezes pela Editora Globo, hoje as obras de Erico são publicadas pela magnífica Companhia das Letras. E eu tive o prazer de ler na primeira e segunda vez, há muitos anos, essa primeira parte de O Tempo e o Vento numa publicação da editora Globo e agora li numa edição linda que integra o box de O Tempo e o Vento da Companhia das Letras. E nas três vezes que li fiquei encantada com cada palavra que Erico escreveu.

É muito difícil escrever resenha de um livro como esse, tão bom, tão clássico, tão importante. Eu só tenho elogios. Mas vamos lá. Por que esse livro é muito bom? Em primeiro lugar por conta da história que é narrada. O Continente fala das origens do processo de formação do estado do Rio Grande do Sul, da formação do povo gaúcho. E para isso Erico criou um romance histórico perfeito, que mistura sua ficção tão bem trabalhada com dados e personagens históricos que são integrados ao enredo de tal forma que é natural pensar que aquilo tudo realmente aconteceu. É um romance, e também uma aula de História. E que aula. Confesso que eu não sou muito conhecedora da História de meu próprio Estado – uma vergonha, eu sei, tanto por ter nascido e vivido a vida toda aqui, quanto por ser formada em História – mas muito do que aprendi sobre ela veio da literatura e em especial desse livro (e do segundo volume também, é claro). E é uma ótima maneira de entender os processos que levaram o povo gaúcho a ser da maneira que é.  Read More

Historical Fiction Challenge 2012

Historical Fiction Challenge 2012Quando vi esse desafio eu não consegui me segurar. Mesmo com tanto desafio que eu já participo em 2012. Amo ficção histórica e não pude deixar Historical Fiction Challenge 2012 passar. Além do mais, eu posso contar os livros lidos nesse desafio no 100+ Books In A Year Reading Challenge 2012! e em outros desafios.

Durante os 12 meses do ano eu posso escolher um dos diferentes níveis de leitura:

  • Severe Bookaholism: 20 livros
  • Undoubtedly Obsessed: 15 livros
  • Struggling the Addiction: 10 livros
  • Daring & Curious: 5 livros
  • Out of My Comfort Zone: 2 livros

O desafio ocorrerá a partir de 01 de janeiro de 2012 até 31 de Dezembro de 2012 e qualquer tipo de ficção histórica é aceito (FH fantasia, FH jovens adultos, etc…). Eu acho que lerei 10 livros de ficção histórica (Struggling the Addiction), mas tudo pode mudar.

Será muito divertido!

Update – Livros lidos: 2 / 10 Books. 20% done!

  1. O Continente vol. 1 (O Tempo e o Vento #1), de Erico Verissimo
  2. O Continente vol. 2 (O Tempo e o Vento #1), de Erico Verissimo
  3. O Retrato vol. 1 (O Tempo e o Vento #2), de Erico Verissimo
  4. O Retrato vol. 2 (O Tempo e o Vento #2), de Erico Verissimo
  5. O Arquipélago vol. 1 (O Tempo e o Vento #3), de Erico Verissimo
  6. Abril Rojo, de Santiago Roncagliolo