Coisa de Louco, de John O’Farrell

Coisa de LoucoCoisa de Louco do escritor  britânico John O’Farrell tem uma premissa muito interessante: pais desesperados que fazem tudo por seus filhos. TU-DO. Escolhi ler esse livro para o Desafio Literário no tema comédia, porque as indicações da contracapa diziam que o livro é hilário. Infelizmente não foi bem essa a impressão que tive da obra.

Infelizmente a parte inicial da narrativa é bem monótona. Vale a leitura, é claro, principalmente por umas sacadas muito boas e em especial pelos três últimos capítulos que são realmente interessantes e fazem o livro todo valer a pena de ser lido – mesmo que a classificação de livro de humor não seja verdadeira, pelo menos no meu caso, que não achei o livro tão engraçado a ponto de dar gargalhadas, apenas alguns sorrisos em trechos esparsos. Eu gostei das personagens, achei a ideia maluca de assumir o lugar da filha para fazer uma prova sensacional, mas graça que é bom veio em doses homeopáticas.

O bacana do livro são as questões sociais que ele levanta: o comportamento de pais super protetores, a classe média se fechando cada vez mais em prisões particulares em casa, na escola, no carro blindado, a diferença gritante entre aqueles que podem pagar pelo seu bem estar e proteção e aqueles que vivem à margem desse mundo, sujeitos a violência, poucas chances de mudar de vida, etc. Mas uma das coisas mais interessantes e que me fez refletir foi a opção final dessa mãe surtada. Não vou contar para não dar spoilers, mas fiquei muito feliz com a imagem de escola pública que o autor descreve e principalmente com a reflexão sobre os motivos de se frequentar a escola, foram impecáveis.

Para ter uma ideia, demorei dois meses para terminá-lo, pois a cada capítulo lido eu ficava pelo menos uma semana sem tocar no livro simplesmente porque ele não me atraía. Já os três últimos capítulos me prenderam tanto que nem dei bola para o mundo acontecendo ao meu redor. E eu fiquei bem feliz com o final. Várias vezes durante a leitura fiquei me perguntando como poderia terminar um livro em que a mãe é capaz de se travestir de criança para fazer um exame de admissão no lugar da filha. Felizmente o final não decepciona, e apesar de não acontecer o mais esperado (o que seria também um desapontamento), o que acontece deixa uma sensação de acalento, um afago leve no leitor.

Coisa de Louco (May Contain Nuts)
John O’Farrell
Editora Record
382 páginas
Goodreads | Skoob
[xrr rating=3/5]

It’s Alive! Frankenstein, de Mary Shelley

Frankenstein, de Mary ShelleyFrankenstein é um clássico da literatura, não apenas por ter sido concebido por uma mulher de apenas 19 anos em pleno século XVII, mas por sua inovação. E para falar francamente, a leitura foi muito diferente do que eu esperava. Muito diferente inclusive do que eu imaginava da própria história. E é claro que a fala mais famosa do cinema quando o assunto é Frankenstein, “It’s Alive!”, não está presente no livro. Eu nunca vi um filme baseado na obra, apenas vi referências à películas antigas em produções mais recentes do cinema e da televisão. Talvez por isso a história da criatura criada por Frankenstein fosse uma grande nuvem de fumaça na minha cabeça, cheia de referências confusas sem ponto de apoio.

É bem verdade que eu não me entendi muito com o estilo do livro e o ritmo de leitura foi muito mais lento do que eu esperava. No entanto, o esqueleto da história é muito interessante. O Dr. Victor Frankenstein cria um monstro a partir de restos mortais que ele coleta por aí. Mas até chegar nesse ponto da história é um martírio. Primeiro tem um sujeito mandando cartas para a irmã contanto o quanto ele precisa viver uma aventura e como todas as outras pessoas são ignorantes, vulgares e sem um pingo de cultura, tornando impossível travar um diálogo no mínimo interessante com qualquer ser humano na face da Terra (eu conheço uma porção de gente assim!). Além do cara se achar a última bolachinha do pacote, ele está envolvido em uma viagem ao Pólo Norte, e conta como essa viagem de navio rumo ao desconhecido está correndo.

[youtube1]xos2MnVxe-c[/youtube1] Não consegue ver? Acesse o vídeo diretamente no Youtube.

Até ele encontrar no meio do nada o Doutor Frankenstein demora uma era. E quando ele encontra o tal Doutor começa a contar sua vida desde a mais tenra infância. Entretanto, quando ela finalmente começa tudo fica muito melhor. Claro que a história continua prolixa e cheia de voltas que parecem inoportunas. Shelly não conta a história de uma maneira fluida, mas usa um mecanismo de enquadramento inteligente (história dentro da história, dentro da história) que faz o final muito mais pungente dando mais emoção para os momentos finais da obra, na reviravolta derradeira da narrativa. Nesse emaranhado de histórias tem um momento em que a palavra está com a criatura criada por Frankenstein, e mesmo sendo confuso (quem narra é o próprio Doutor como se fosse a criatura) é uma das mais belas passagens do livro.  Read More

Harry Potter completa 30 anos

Muitos continuam chamando Harry Potter de bruxinho: o bruxinho mais famosos do cinema, da literatura, etc. Mas a verdade é que hoje o “bruxinho” completa 30 anos de vida.

Harry Potter

Harry Potter nasceu no dia 31 de Julho de 1980 e a história dos sete livros da saga se passa ao longo de sete anos, um para cada livro.  Ou seja,  desavisados de plantão (que são muitos, basta ver quanta gente acha que “o ator já está velho para interpretar o bruxinho”) Harry Potter não é mais um bruxinho, e deixou de ser muito antes de a saga acabar. Ele entrou para Hogwarts em 1991 com 1o para 11 anos (primeiro livro, lançado em 1997) e no último livro ele já está com 17 anos.

O protagonista cresce ao longo da história, seja em idade quanto em maturidade, aprendendo com tudo que o mundo da magia o revelou. Junto com ele os livros crescem, amadurecem acompanhando a personagem em sua trajetória, melhorando a cada publicação.

Tenho de confessar (como já fiz aqui no blog) que até muito pouco tempo atrás eu tinha grande preconceito em relação às obras de J. K. Rowling. Achava que eram caça-níqueis sem conteúdo. Estava redondamente enganada. Ganhei os livros do Ju e devorei tudo em menos de dois meses. Fiquei encantada com os personagens, com as histórias e com os filmes também.

Não posso dizer que os livros de J. K. Rowling foram responsáveis pelo hábito e gosto pela leitura, pois esses eu já tinha desde pequena. No entanto acredito que eles possam ascender a vontade de viajar pelas páginas de outros livros para quem não tem costume de se aventurar pela literatura. Alguns pensam o contrário. Essa polêmica é antiga e reascendeu agora com a saga Crepúsculo (que não li e tenho certas restrições ao gênero). Formar leitores é um desafio e recomendo a leitura do texto de Luis Eduardo Matta no Digestivo Cultural onde ele aborda de forma interessantíssima o assunto.

Ao ler Harry Potter eu não estava entrando em um gênero desconhecido para mim, pelo contrário, já era fã da literatura de fantasia. Exatamente por isso eu aceitei dar uma chance à saga. E não me arrependo. Fico feliz de ter lido e de ter virado fã. Espero poder reler os livros logo, mas não deixo de ler outras coisas por isso.

Feliz aniversário Harry. Ah, e feliz aniversário J. K. Rowling.

Na praia – Ian McEwan

Na Inglaterra, em 1962 um casal acaba de casar e tem pela frente sua noite de núpcias. ela, uma menina de família rica, formada em música e apaixonada pelo que faz. ele um garoto de família pobre, formado em Oxford – História.

Antes da revolução sexual que assolou o mundo na segunda metade da década de 1960, este casal tem pela frente uma noite cheia de medos, angústias e ansiedades. Ela tem medo do que vai acontecer, e ela sabe o que vai acontecer. ele está ansioso, se guardou para aquele momento e etem tantas expectativas. São jovens, apaixonados, amam-se verdadeiramente. Porém a noite de núpcias será uma noite de provações para ambos.

Um narrativa impecável e um estilo fluido. Na Praia superou todas as minhas expectativas. Ian McEwan consegue retratar diversos aspectos morais e sociais da geração pré 1968. Ele transcende o registro particular ao tratar o drama do casal atingindo o retrato de uma época inteira. Das contradições entre o novo e o antigo, entre a maturidade e a inocência.

Trata-se de uma obra  sobre o exato momento em que a perda da inocência está em jogo. Sobre as condições e as consequências dos atos de cada inivíduo perante este momento que viria a se diluir da vida dos jovens pós 68. A narrativa possui uma excelência digna de um dos maires escritores ingleses da atualidade. Uma história comovente ao mesmo tempo que espinha a moralidade remanscente.