Um findi em São Chico – é para repetir a dose

Sou do tipo que tem coceira no pé, não posso ficar muito tempo em um lugar só que a coceira começa. Viajar é indispensável. Na maior parte das vezes viajar é difícil devido ao grande empecilho financeiro, mas sempre que posso eu ponho o pé na estrada.

E, às vezes, a viajem rende mais de um lugar. Foi assim com o retorno de São Paulo. Nem bem eu e o Ju chegamos em casa já estávamos arrumando as malas para embarcar rumo a São Chico (apelido carinhoso para São Francisco de Paula), uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Foi apenas um fim de semana, mas muito bom.

São Chico não pareceu ter muito a oferecer quando se fala da cidade em si, ou nós que não tivemos tempo pra conhecê-la melhor (uma possibilidade bem grande, visto que dois dias é sempre muito pouco). A parte urbanizada é bem pequena, mas ainda assim guarda pequenos tesouros, como a Livraria Miragem e os restaurantes – dos quais almoçamos em apenas um, uma casa de massas com jeitinho de casa antiga e com comida excelente. Típica cidade pequena, o cento é uma avenida e a cidade cresce em torno.

O mais bacana de São Chico é o interior, a natureza. Realmente muito lindo, cheio de campos e araucárias. Não tivemos oportunidade de explorar tudo que a cidade tem para oferecer, mas tivemos uma experiência encantadora com a natureza local. Ficamos afastados da área urbana e pudemos contemplar as belezas rurais, aproveitar o frio e ler lagarteando debaixo de uma árvore. Deixando o tempo passar sem preocupação. Coisas que só a vida no campo pode oferecer. Me senti dentro de O Continente, com o vento batendo no rosto e admirando a paisagem campestre como as personagens de Veríssimo.

Permacultura

Sempre tive um interesse muito grande em viver em harmonia com a natureza. Descobri a Permacultura e encontrei nela um modo de por em prática esse desejo antigo. Mas afinal de contas o que é Permacultura? Buenas, existe uma literatura bastante grande sobre o assunto. Deixo como uma introdução uma citação muito significativa com a definição de Bill Mollison para o desenho que simboliza a Permacultura:

“O formato oval, do símbolo da permacultura, representa o ovo da vida; aquela quantidade de vida que não pode ser criada ou destruída, mais que é expressada e emana de todas as coisas vivas. Dentro do ovo está enrolada a serpente do arco-íris, a formadora da terra dos povos aborígines. No centro está a árvore da vida, a qual expressa os padrões gerais das formas de vida. Suas raízes estão na terra e sua copa na chuva, na luz do sol e no vento. O símbolo inteiro e o ciclo que representa, é dedicado à complexidade da vida no planeta Terra.” (Extraído de “Introdução a Permacultura” de Bill Mollison)

Para entender melhor, essas são as bases fundamentais da permacultura urbana: Reduzir, reutilizar e reciclar. Definitivamente essas são as melhores maneiras de começar.

Reduzir: Pensar se realmente é necessário consumir.

Reutilizar: Pensar quais as novas funções que uma coisa pode adquirir depois que a função primordial já foi exercida.

Reciclar: pensar que se não pode reutilizar, recicle.

Espero que este texto sirva de inspiração para iniciar pelo menos alguns dos princípios da permacultura aí na tua casa.

Nosso caráter temporário.

Faz umas duas semanas, eu terminei de ler um livro muito bom: Do Mar ao Deserto – A Evolução do Rio Grande do Sul no tempo Geológico, do professor Michael Holtz da UFRGS. é um livro de divulgação do curso de Geologia. Ele narra a história da Geologia, a formação da terra, as teorias em voga e as já “ultrapassadas”, mostra como o RS se tornou o que é hoje, de maneira agradável, fácil e a leitura é prazerosa. Mesmo sendo para leigos e não leigos, o livro tem uma preocupação com o caráter acadêmico, sempre citando fontes e aplicando conceitos. Gostei em especial do último capí­tulo, todos são bons, mas o último é maravilhoso. Neste capítulo ele fala suas conclusões acerca da história geológica de nosso estado e coloca algumas questões para reflexão que são muito pertinentes:

Ao longo da marcha evolutiva surgiu um ramo de animais que hoje chamamos de gênero ‘homo’, que se diferencia dos demais animais pela fala bem desenvolvida e pelo emprego de seu intelecto no empenho de auto destruição. (pág.: 139)

Cabe ressaltar que o curso que estamos tomando para atingir a evolução tecnológica está nos destruindo, e ainda mais, destruindo a natureza, e sem ela podemos até inventar a fórmula da vida que não nos será útil para nada.

Somos um produto casual e temporário da evolução e temos a obrigação de entender e de respeitar este fato, para não julgar a espécie humana como algo superior ou especial na construção do edifí­cio da vida. (pág.: 141)

Segundo o autor, os mamí­feros surgiram insignificantemente dentre os dinossauros e por muitos anos foi obrigado a viver em tocas no subsolo porque os dinossauros dominavam a terra. Foi só com o meteoro que atingiu a terra há 65 milhões de anos que puderam sair e habitar o solo, pois acostumados que eram a ambientes inóspitos, a nuvem de poeira e gazes que tapou o sol e matou toda a vida dos répteis gigantes não os afetou e puderam se expandir, evoluir e chegar nos tempos atuais. Não está longe de uma nova catástrofe (natural ou não), é bom não esquecermos que assim como nós já fomos, outros animais são submetidos a condições pouco propí­cias só esperando o nosso fim para saírem da toca e dominar o mundo. Este posto já foi dos plânctons, dos anfíbios, dos répteis e dos mamí­feros, quem serão os próximos?

100% CRIME!

Na noite de ontem, no programa “Fantástico” da TV Globo, uma matéria chamou muito a minha atenção, a disputa entre os criminosos do latifúndio, os ambientalistas do Greenpeace e os moradores do Pará.

Me intrigou muito o espaço destinado a esse tipo de matéria. As imagens são chocantes. A disputa vem de tempos, e apesar de a ONG Greenpeace, ter deixado o lado ONG pra trás e ter se transformado em empresa, eu admiro o trabalho dos seus militantes e em especial o trabalho que fazem no Pará em prol da Floresta Amazônica. Eu fico indignada com esses latifundiários com seus argumentos estúpidos para justificar o desmatamento da floresta. Um deles inclusive chegou a afirmar que desmatar não é crime. O argumento principal desses criminosos diz respeito à produção do soja. Eles afirmama que desmatam para alimentar o paí­s e diminuir a fome. Ora, se a produção fosse feita realmente para o país, mas é produto para exportação, e como bem disse uma das moradoras, o dinheiro não fica para a comunidade, fica tudo no bolso dos fazendeiros ricos. O pior é que esses latifunndiários são dos Sul e Sudeste do país, na sua maioria, e vão pra lá justamnete para ganhar mais dinheiro, pois são terras federais, irregulares.

Os criminosos do latifúndio querem que o governo regularize suas terras, o IBAMA fica quase sem ação, pois de um lado há a pressão dos fazendeiros, que matam pra conseguir o que querem (lembre-se da irmã americana assassinada ano passado), de outro os ambientalistas que exigem a expulsão desses que matam e desmatam, e os moradores que cada vez mais são excluí­dos e obrigados a migrarem de seus locais de origem. Ao manifestarem-se, os militantes ecológicos são ameaçados e presos, como foi o caso do porto de 20 milhões de dólares construí­do para facilitar a exportação desses produtos plantados ilegalmente. Os ecologistas foram barrados pelos seguranças e tiveram seu navio destruído pelos fazendeiros. Quem foi preso pela Polícia Federal? Os militantes, é claro, levando em consideração que a polí­cia só existe para um único fim, proteger, mas não a população em geral, e sim a classe e burguesa e sua propriedade.

A imagem que ficou como sí­mbolo dessa luta foi a enorme faixa amarela, com a escrita “100% CRIME” estendida em uma das plantações, logo após destruí­da pelo fazendeiro e seu carro (o mesmo que afirmou: “desmatar não é crime”). Essa é uma luta que deve ser incorporada ao nosso cotidiano. Em pequenos atos, em militância ou apoio às entidades ou organizações ambientais. Essa luta é nossa, e não deles. Estamos distantes geográficamente, mas isso não pode impedir de nos solidarizarmos com nossos companheiros, a Amazônia é de todos.