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um poema

Eu não sou uma pessoa que entende muito de poesia. Mas eu acabo, vez por outra, encontrando alguns poetas e poemas que me marcam de diversas maneiras. Angélica Freitas é um desses casos. Esse ano eu li da autora o incrível “Um útero é do tamanho de um punho“. E foi um punho certeiro na boca do meu estômago. Imagens muito fortes e muito críticas. Então eu recomendo muito conhecer a poesia de Angélica, mesmo se você não é tanto de poesia, como eu. Porque ela vai falar direto contigo, e vai falar alto, contundente.

Uma provinha do que você vai encontrar:

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa

(De Angélica Freitas, “Um útero é do tamanho de um punho”, Ed. Cosac Naify, 2012)

Dia D. Dia de Drummond

Dia D.

No dia 31 de outubro de 1902, nascia o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Para comemorar a data, o Instituto Moreira Salles lança a ideia de instituir um Dia D – Dia Drummond –, que passa a fazer parte do calendário cultural do país. Então, a partir de hoje, todo dia 31 de outubro comemoraremos o Dia D aqui no Brasil. E no mundo, por que não?

Como parte das comemorações, o IMS incentivou o pessoal a filmar suas leituras dos poemas de Drummond e enviar para o site especial criado para o Dia D. Eu fui convidada para fazer uma leitura do poema A Quadrilha junto com uma porção de gente bacana:

Aline – RJ – Blog Litlle Doll House
Daniela – RS – Blog Trecos e Trapos
Juliana – MG – Blog O batom de Clarice
Gabriela – RJ – Blog Quinas e Cantos
Santiago – GO  – Blog Santiago Regis
Luara – RJ – Blog Isaac Sabe
Patrícia – MS – Blog Ainda Minina Má
Chico – RS – Blog Contextos

Eu sou suspeita para falar, mas o vídeo ficou lindo. Assiste e me conta o que achou.


Link direto para o vídeo no Youtube 

O Meme Literário de Um Mês 2011 – Dia 20

Morte e vida severina e outros poemas para vozesVocê gosta de poesias?
(Qual o seu poeta ou poema favorito?)

Serei muito sincera aqui, eu não sou muito fã de poesia. Um pouco porque não tenho o costume de ler e também porque dificilmente eu leia uma poesia que realmente goste. E falo aqui não do mérito dos poetas, mas da maneira como ela me tocou. Sendo assim, fica difícil dizer qual meu poeta favorito. Posso apenas citar alguns dos que eu gosto, como Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa. E recentemente li um livro de poesias que eu gostei bastante, que é o Morte e vida severina e outros poemas para vozes, do João Cabral de Melo Neto, que contém um dos trechos mais lindos que eu já li da Literatura Brasileira.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Para ver as respostas dos outros dias, clique aqui.

Morte e vida severina e outros poemas para vozes

Morte e vida severina e outros poemas para vozes, João Cabral de Melo Neto

Eu confesso que não sou muito chegada em poesia. Não tenho o dom para apreciá-las como deveria, são poucas as que me agradam. Não sei porque, mas desde que me conheço por leitora sou assim. No entanto, uma das coisas mais lindas que já li na minha vida foi a apresentação de Severino em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. É simples, sucinto, e ao mesmo tempo tão forte e marcante que é impossível esquecer quem é Severino. Ele é um nordestino, ele é ao mesmo tempo um personagem único e inúmeros brasileiros.

O retirante nordestino a quem coube o nome de Severino percorre a mesma trajetória de milhões de cidadãos brasileiros. Ele enfrenta as adversidades que essa vida severina que se apresenta para muitos e sai da morte para alcançar a vida.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI
— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

Eu fiquei realmente emocionada ao ler esse trecho de Morte e Vida Severina, que tem como subtítulo “auto de natal pernanbucano. O texto é assim estruturado, como um auto de natal – o formato de teatro que encenava a vida de santos e outras temáticas religiosas no Medievo – dividido em 18 cenas ou fragmentos poéticos.

Em Morte e Vida Severina e Outros Poemas para Vozes somos apresentados a quatro poemas de João Cabral de Melo Neto. São eles: O Rio, Morte e Vida Severina, Dois Parlamentos e Auto do Frade. Continue lendo →

Confissões de um poeta

Confesso que Vivi - Pablo Neruda

Confesso que Vivi - Pablo Neruda

Comecei a ler Pablo Neruda logo por um livro de memórias, eu que nunca li sequer um de seus poemas. O poeta comunista conta em Confesso que Vivi sua trajetória de vida desde sua infância no sul do Chile até o 11 de setembro mais marcante da história recente da América Latina: o golpe que derrubou e matou Salvador Allende na década de 1970 no Chile.

E como esse poeta passou por coisas nessa vida. Trabalhou nos muitos consulados chilenos pelo oriente, na Espanha (onde presenciou um dos maiores e mais emblemáticos conflitos do século XX, a Guerra Civil Espanhola), passeou por outros países da Europa e da América Latina. Foi Senador do Chile e candidato à presidência do mesmo país. E muitas outras coisas mais.

O livro é dividido em partes temáticas, ou seja, a cada parte ele trata de um tema diferente de uma fase de sua vida.

O Jovem Provinciano: parte em que o autor narra sua infância, a presença constante da chuva e suas primeiras experiências poéticas no sul chileno. E sua narrativa é bastante poética, de uma sensibilidade ímpar, suas descrições mostram as primeiras e grandes impressões do mundo e das pessoas que o rodeavam.

Perdido na Cidade: quando Neruda vai para a cidade grande,  em Santiago do Chile e incorre em novas descobertas abandonando os bucólicos campos sulinos e publica seu primeiro livro.

Os Caminhos do Mundo e A Solidão Luminosa: a nomeação como Cônsul do Chile em Rangoon, no Oriente transforma a vida do poeta que conhece um novo mundo nos lugares remotos que vive e passa a ter uma percepção mais ampla do homem. E essas duas partes foram as que mais gostei no livro. Para quem será professor de História, as suas passagens e descrições são magníficas para se trabalhar em sala de aula quando o assunto for Imperialismo ou oriente no início do século XX. São capítulos bastante curtos descrevendo fatos, pessoas, realidades sociais dos diversos países pelos quais ele passou como Cônsul. Todos ou quase todos colônias britânicas.

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Um poema aos Domingos #1

O trecos & trapos está passando por algumas reformulações, dentre elas a criação desta coluna: Um poema aos Domingos.

Sempre aos Domingos, em quase todos, publicarei um poema do qual eu goste ou uma indicação tua. Por quê? Simplesmente porque a poesia nunca foi meu forte. Nem na leitura, muito menos na escrita. E eu quero descobrir um pouco mais sobre poetas e suas obras e sensibilizar-me um pouco mais a partir desse formato de literatura.

No começo vou colocando os poemas que gosto. E para começar bem resolvi colocar um poema de Heiner Müller. O poema é uma homenagem à Pina Bausch.

Sangue na Sapatilha ou Enigma da Liberdade

Heiner Müller – 1981 (para Pina Bausch)

De criança brincávamos de esconde esconde.
Ainda se lembra de nossos jogos?
Todos se escondem, um espera
O rosto contra uma árvore ou parede
As mãos sobre os olhos, até que o último
encontre seu lugar, e quem for descoberto
Tem que correr do pegador.
Se chegar primeiro na árvore, está livre.
Se não fica parado no lugar
Como se bater a mão em uma árvore ou parede
O pregasse ao chão como pedra sepulcral
ele não pode se mover até que o último
Seja encontrado. e às vezes o último
Por estar tão bem escondido, não é encontrado.
então todos esperam petrificados
cada qual seu próprio monumento, pelo último
e às vezes acontece morrer um
Seu esconderijo não é encontrado, não há
Fome que o faça escapar de sua morte
Aquela que o encontrou fora da fila
Os mortos não tem mais fome.
Então não há ressurreição. O pegador
Revirou cada pedra quatro vezes.
Agora só pode esperar, o rosto
Contra a árvore ou parede
as mãos sobre os olhos, até que o mundo
Tenha passado por ele.
Ponha suas mãos sobre os olhos irmão.
Os outros, que o pegador pregou ao chão
Ao bater a mão em uma árvore ou parede não correram
Depressa de seu esconderijo que não era bem seguro,
Eles agora não tem mais sobre seus olhos as mãos,
Não mais podem se mover e também os olhos não podem fechar
de acordo com a regra do jogo.
Como pedras no cemitério esperam eles
Com os olhos abertos para o último olhar.