Um findi em São Chico – é para repetir a dose

Sou do tipo que tem coceira no pé, não posso ficar muito tempo em um lugar só que a coceira começa. Viajar é indispensável. Na maior parte das vezes viajar é difícil devido ao grande empecilho financeiro, mas sempre que posso eu ponho o pé na estrada.

E, às vezes, a viajem rende mais de um lugar. Foi assim com o retorno de São Paulo. Nem bem eu e o Ju chegamos em casa já estávamos arrumando as malas para embarcar rumo a São Chico (apelido carinhoso para São Francisco de Paula), uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Foi apenas um fim de semana, mas muito bom.

São Chico não pareceu ter muito a oferecer quando se fala da cidade em si, ou nós que não tivemos tempo pra conhecê-la melhor (uma possibilidade bem grande, visto que dois dias é sempre muito pouco). A parte urbanizada é bem pequena, mas ainda assim guarda pequenos tesouros, como a Livraria Miragem e os restaurantes – dos quais almoçamos em apenas um, uma casa de massas com jeitinho de casa antiga e com comida excelente. Típica cidade pequena, o cento é uma avenida e a cidade cresce em torno.

O mais bacana de São Chico é o interior, a natureza. Realmente muito lindo, cheio de campos e araucárias. Não tivemos oportunidade de explorar tudo que a cidade tem para oferecer, mas tivemos uma experiência encantadora com a natureza local. Ficamos afastados da área urbana e pudemos contemplar as belezas rurais, aproveitar o frio e ler lagarteando debaixo de uma árvore. Deixando o tempo passar sem preocupação. Coisas que só a vida no campo pode oferecer. Me senti dentro de O Continente, com o vento batendo no rosto e admirando a paisagem campestre como as personagens de Veríssimo.

Todas as Histórias do Analista de Bagé

Todas as Histórias do Analista de BagéO Analista de Bagé é um psicanalista que criou a terapia do joelhaço e faz muito sucesso com seus tratamentos nada convencionais. Ele é também um dos personagens mais famosos de Luis Fernando Veríssimo. Nesse pequeno livro estão reunidas as histórias do analista e por serem leves, divertidas, engraçadas e curtas, é super rápido de ler. Uma ou duas viagens de trem.

São pequenos contos reunidos e talvez por isso algumas coisas se repitam demais, do meu ponto de vista. Em quase todas eles temos uma descrição de como é o divã do analista, de como é sua relação com a secretária e de como ele criou a terapia do joelhaço. Mas isso não chega a incomodar muito, afinal a leitura é tão rápida que pode até passar despercebido.

O que mais me incomodou, na realidade, foi algumas das tiradas do gaudério. Algumas passagens tem um tom marcadamente machista ou homofóbico. Eu quero crer que eu é que não peguei o tom da piada ou o grau de ironia. Afinal a leitura foi realmente muito rápida. Nem todas as piadas sobre mulher são machistas, mas algumas me pareceram, e muito. Um pouco do que constitui a personalidade e a cultura do gaúcho é machista, mas por favor, não estou generalizando! Read More

Contos Gauchescos & Lendas do Sul, Simões Lopes Neto

Contos Gauchescos e Lendas do Sul, L&PM

Nessa edição da L&PM é possível ler duas obras em uma. Contos Gauchescos trata de diversos contos curtos protagonizados ou narrados pelo mesmo personagem, o Blau Nunes. Já em Lendas do Sul são narradas histórias baseadas em algumas das lendas folclóricas aqui do Rio Grande do Sul, a descrição delas e ainda um apanhado rápido de outras lendas pelo Brasil afora.

O bacana dessa obra, principalmente do primeiro livro, é o tom de conversa, de prosa mesmo, que o autor confere ao seu texto. Pois o narrador é um gaúcho do campo, ele é o contador de histórias, o velho proseador que abre o livro conversando com um personagem que não aparece e que pode muito bem ser você leitor. Todas as histórias apresentam o interior do Rio Grande, mesmo que Simões Lopes Neto nunca tenha andado pelos pagos que descreveu, ele morou em Porto Alegre e Pelotas e nunca visitou nenhuma outra cidade além destas (pelo menos é o que consta na minibiografia que antecede o livro). E as descrições são tão vivas e os personagens tão característicos (alguns deles), as histórias tão marcantes que é impossível não embarcar em uma viagem no tempo e sentir cavalgando pelas coxilhas do pampa gaúcho.

No entanto, essa mesma característica que engrandece tanto a leitura, é também prejudicial. O vocabulário é muito hermético e eu, nascida e criada no RS senti dificuldades com alguns vocábulos. Alguns em desuso, outros muito particulares de certas regiões do Estado e outros ainda particulares de situações e contextos que não fazem parte do meu dia a dia. Talvez por isso a leitura tenha demorado mais do que o esperado, pois o livro é bastante pequeno e esperava lê-lo em dois ou três dias no máximo. Além disso, alguns contos são bem massantes, o que não tira o mérito de passagens realmente genias como em Melancia – Coco Verde, Contrabandista e Jogo do Osso.  Read More