Laboratório

Quando entrei para a oficina de teatro que a escola oferecia, pensava em perder a timidez, conseguir fazer um comentário na sala de aula, estar habilitada a perguntar o que quer que fosse aos professores sem adquirir uma cor vermelha intensa nas bochechas, nem sentir um calor subindo pelo rosto e pela nuca. Pensava também em conseguir sociabilizar com os colegas de turma, algo que sempre foi muito difícil, visto que não conseguia sequer olhá-los de frente, imagina falar com eles. Aprender a falar, com um ou com muitos, era meu grande objetivo.

Acontece que eu me enganei. Profundamente. Sim, eu atingi o objetivo, Tornei-me sociável, comunicativa, falante, tagarela, gritona. Mas não foi apenas uma expansividade exagerada que eu adquiri. Tomei gosto por essa história de viver outras vidas, ler outros mundos nas falas e ações dos personagens. Resolvi, então, encarar outro desafio e partir para algo mais profissional do que a oficina da escola. E fui cair logo na Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. A Terreira é o espaço do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, uma companhia com três décadas de existência, uma elogiadíssima produção teatral na rua e no palco, que no caso do Ói Nóis pode ser uma sala, uma casa ou um Hospital Psiquiátrico.

Entre aulas de expressão corporal, pulando, movendo os braços para todas as direções possíveis, interpretação, encenando cenas diferentes a cada mês, improvisação, falando em telefones imaginários, aulas de História do Teatro no Brasil e no mundo, fui aprendendo aos pouquinhos, uma dia de cada vez, a ouvir. Ouvir era, afinal, ainda mais difícil do que falar. Nos primeiros dias de aula, logo nas primeiras apresentações para os colegas, ouvia críticas como: “falta energia na tua atuação”, “precisa brincar mais com a entonação das palavras” e “tu precisa sentir o que o personagem sente”. Mas tudo o que eu absorvia era: “tu é uma péssima atriz”, desiste disso, que não é pra ti” ou “que horrível, chama isso de atuar?”.

Todos os dias eu saía da aula sentindo uma decepção tão grande quanto minha imaginação permitia, pensando em desistir. Porém, insistia e continuava frequentando as aulas. Aos poucos fui percebendo que se eu aplicava em cena o que recebia dos colegas, atuava melhor. Que o que se diz em cima do tablado é para ficar por lá. Que ninguém dizia qualquer coisa para ofender ou porque não gostava da minha cara. Só me senti parte do grupo quando aprendi a ouvir críticas sem imaginá-las um monstro de 20 olhos, pele verde e gosmenta, pronta para me devorar.

Quando resolvi aprender teatro não imaginava que falar poderia ser tão simples e ouvir é que se constituía um problema. Que para ser atriz, ou professora, ou qualquer coisa nessa vida, é preciso saber ouvir, inclusive críticas, e atender o que se ouve. Um alívio tão grande poder, quase dez anos depois, ouvir um “quem sabe tu faz assim, ao invés de assado” sem achar que a pessoa me odeia.

A Alma Boa de Setsuan - eu estou em cena

Texto produzido para a disciplina de Leitura e Produção Textual do curso de Letras Bacharelado – UFRGS em 2011/1.

Édipo Rei, o texto trágico de Sófocles

Édipo Rei

Sou o tipo de leitora que lê peças de teatro. Muitos não gostam, acham difícil, truncado, estranho e tantos outros adjetivos que não há espaço para listá-los todos. Eu entendo, de verdade. Mas reconheço minha peculiaridade. Comecei lendo este espécime literário porque fazia teatro na escola e para apresentar um “espetáculo” (vamos combinar que teatro na escola não monta espetáculo, no máximo coloca um bando de adolescentes num palco e eles que se virem – no bom sentido, é claro) é preciso decorar o texto. Ah o texto teatral é tão bacana. Uma simples indicação do falante e o discurso corre solto.

Depois me apeguei ao hábito. Parei de tentar atuar, mesmo após me aventurar em vôos mais longínquos com o fim do Ensino Médio, mas reconhecendo minha falta de talento parei de tentar. Entretanto nunca parei de ler textos de teatro. E nesse coração de mãe, onde sempre cabe mais um livro, esses textos tão especiais sempre encontram abrigo.

Assim foi com um texto grego, uma tragédia de Sófocles. Aquela que é o modelo para toda a tragédia escrita posteriormente, aquela que inspirou grande parte do trabalho de Freud e seu famoso Complexo de Édipo, Édipo Rei. Nesse magnífico texto (que eu obviamente li traduzido para o português, porque o meu grego anda enferrujado HAHA!) temos um Rei, Édipo, que tenta descobrir o assassino de seu antecessor e marido de sua atual esposa. Acontece que a tragédia está inserida em um contexto mitológico, ou seja, existe toda uma narrativa mitológica para o Rei Édipo, desde seu nascimento até sua morte, que segue com seus descendentes. Para ler o texto de Sófocles talvez seja interessante conhecer essa narrativa mitológica. E digo talvez porque eu realmente não saberia dizer se ela faz falta ou não na hora da leitura, pois eu a conhecia de antemão.

A tragédia de Édipo, a condição trágica de sua existência, é dada pelo mito. A contradição entre a possibilidade da ação e a condição de refém do destino (Moira) vigora na tragédia. E a noção de encruzilhada é bastante importante para entender Édipo. Ele está constantemente em um encruzilhada onde o planejamento divino e o humano são opostos. No início do texto de Sófocles é possível perceber um Édipo arrogante, que se coloca acima dos Deuses, superior ao próprio destino, pois ele sabia da profecia que regia sua vida – mataria o pai e casaria com sua mãe – e não a viu concretizada quando soube da morte de seu pai na sua cidade natal (Corinto) que abandonara a fim de fugir do destino. Ele não matou o pai, ele ganhara. No entanto, o desfecho da tragédia o transforma no mais infame dos homens. A extensão e a intensidade dessa transformação de Édipo potencializa, entre outras coisas, a catarse.  Read More

Qorpo Santo, três comédias

Qorpo Santo

Qorpo Santo (José Joaquim de Campos Leão, Triunfo, 19 de abril 1829 – Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo gaúcho esquecido por muito tempo, que teve sua importância recuperada apenas na segunda metade do século XX. Ele nos deixou como herança uma extensa obra teatral, todas as suas peças estão em domínio público, disponíveis para download gratuito na página do Domínio Público. Criou sua própria gramática, de onde se pode compreender a peculiar grafia de seu nome. Foi professor, diagnosticado como louco e interditado judicialmente a pedido da própria família, escrevia compulsivamente.

Recentemente li um livrinho (o diminutivo refere-se apenas ao tamanho físico do livro, e não a sua qualidade) editado pela Mercado Aberto com três de suas comédias. A obra editada como As Relações Naturias: três comédias, contém as peças As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu sou vida, eu não sou morte. Textos curtíssimos escritos em Maio de 1866 que brincam o tempo todo com as palavras e com a gramática. Além disso, Qorpo Santo escreve textos teatrais que estão carregados de suas teses sociais, críticas e deboches aos costumes e instituições de sua época. Curiosamente, as peças As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida, Eu Não Sou Morte foram montadas pela primeira vez em 1966 em Porto Alegre.

As Relações Naturais

Essa peça trata de desejos reprimidos, contém um erotismo exacerbado para a época e é considerado praticamente um manifesto crítico sobre religiosidade, sexualidade e a família. O texto mostra um lar transformado em bordel e relações familiares incestuosas e perversas. Uma crítica ácida a instituição da família. Expõe desejos reprimidos pela sociedade e a intimidade familiar de forma cômica e cruel.

Mateus e Mateusa

Apresenta a relação de amor e ódio de um casal de idosos e suas filhas. Os personagens se agridem verbal e fisicamente e discutem a respeito do casamento e da vida em comum. Mais uma de suas críticas à família, esta peça está entre suas peças mais conhecidas. Escrita em único dia (12/05/1866) narra uma história cômica sobre as relações familiares que deixam o leitor/espectador refletindo sobre o sentido dessas relações.

Eu sou vida, eu não sou morte

Essa comédia possui um tom de tragédia. Trata-se de um triângulo amoroso em que estão envolvidos Linda e Lindo, e o Rapaz. O marido mata o rival (Lindo) em nome da honra, orgulho e integridade. Uma ironia aos valores da sociedade de sua época. Esta peça virou filme em 1970.

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Calabar – o elogio da traição

Calabar

Calabar – o elogio da traição foi escrita no início dos anos 70 e foi liberada para ser encenada apenas muitos anos depois. Em 1973 Chico Buarque e Ruy Guerra procuram Fernando Peixoto para encenar a peça que eles acabaram de escrever. Muitas tentativas e ensaios depois, a peça só foi liberada (ou anistiado, como diz o próprio Fernando no texto de abertura da peça) pela censura em 1980. Um texto que foi escrito durante um ano, passou por muitas revisões, recomeços e pesquisas. Por se tratar de um tema histórico – a guerra entre Holandeses e Portugueses no Nordeste brasileiro no século XVII – os autores careciam de muito trabalho de investigação histórica. E um diferencial importante foi o trabalho de parceria, Chico e Ruy escreveram e pesquisaram juntos.

No entanto, mesmo se tratando de um texto que toca em um tema histórico, ele não se pretende uma reconstituição minuciosa de um acontecimento histórico. A História é utilizada como matéria para um reflexão em torno de uma tema que dá o argumento do texto: a traição de Calabar (que troca de lado no meio da guerra e passa a apoiar os Holandeses) e as outras tantas traições que ocorrem no texto. Os personagens e fatos históricos são usados para refletir sobre o problema e o significado de traição. Nesse sentido, a própria traição de Calabar (fato histórico) é questionada e a figura dele remete também ao homem que foi transformado em herói pelos holandeses. O que se apresenta ao espectador/leitor é a opção de Calabar em apoiar os holandeses, pois ele acreditava que eles poderiam trazer ao Brasil um governo mais livre, humano, menos opressor e escravista que os portugueses. Ele acreditou e seguiu sua crença até o fim, quando foi assassinado, esquartejado em praça pública para servir de exemplo ao restante das tropas portugueses.

É importante notar a estrutura do texto teatral, dividido em dois atos, que foge da dramaturgia bem comportada apresentada até então por diversos dramaturgos e companhias teatrais, pois o relato é descontínuo e as cenas ocorrem livremente, independente umas das outras. Porém o texto completo apresenta uma unidade lógica e objetiva. Entretanto, o que considero mais importante e o maior mérito da peça enquanto texto, mas principalmente enquanto espetáculo, é a maneira como os conflitos são resolvidos cenicamente. Ele é popular e desmistificador da História e de seu tema central, e usa a comédia e a música para falar com seu espectador (no caso da leitura isso é um pouco menos forte, é preciso imaginar o espetáculo no palco, arena, sala, rua, para ter uma noção dessas resoluções cênicas). Mesmo com o tom de comédia e musical, existem momentos de intimismo e de exposição da alma dos personagens.

Todas as falas, sejam de comédia, música, diálogo ou monólogo, são fortes e ásperas, revelam um realismo e um distanciamento crítico que permite observar e refletir tanto o fato histórico colocado em cena quanto a sociedade em que o o texto nasceu e, até mesmo, o mundo em que vivemos hoje. A leitura, por ser diferenciada no sentido de ser uma apresentação diferente e não usual para a maioria dos leitores, pode não fluir muito bem, o que não foi meu caso Estou acostumada a ler texto teatral, pois já me aventurei no teatro e até encenei alguns espetáculos. A leitura, para mim, foi muito rápida e fluida. Achei o texto muito bem escrito e seu argumento muito importante. É um texto que recomendo para quem se interessa na reflexão e crítica de nossa sociedade – e penso que todos deveriam se interessar. Mesmo assim achei que o texto não surgiu todas as minhas expectativas em relação ao enredo e aos personagens.

Calabar – o elogio da traição
Chico Buarque e Ruy Guerra
Editora civilização brasileira
149 páginas
Skoob | Submarino
[xrr rating=3/5]

Desafio Literário 2011

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Junho, cujo objetivo é ler uma Peça Teatral.

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês. Ou descubra quais foram as minhas escolhas.

Participe, comente, leia.

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Aproveita e segue a equipe do Desafio Literário 2011 no twitter também:

@vivi, @danihaendchen, @queromorarlivr e eu, @clandestini.

Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

Fevereiro
Che Guevara – a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda
O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

Março
As Brumas De Avalon Livro 1 – A Senhora Da Magia, de Marion Zimmer Bradley
As Brumas De Avalon Livro 2 – A Grande Rainha, de Marion Zimmer Bradley

Abril
O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams
Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!, de Douglas Adams

Maio
A Última Trincheira, de Fábio Pannunzio
Esqueleto na lagoa verde, de Antonio Callado

A primeira a gente nunca esquece.

Semana passada eu recebi minha primeira meme (Não sabe o que é? Joga no Google) da Carla. Ela me passou via comentário e eu aceitei o desafio. Mas compartilho com ela: Só cinco? Ela me passou a responsabilidade de listar os meus 5 melhores livros de todos os tempos e é lógico que ficarão muitas coisas de fora. Optei apenas por literatura. Optei, não pelos melhores, mas pelos que fizeram parte de bons momentos. Então vamos lá:

01. Fim: Notas sobre os Últimos dias do Império Americano (G. A. Matiasz) Estou a tempos pra escrever uma resenha deste livro e por motivos diversos acabo deixando para depois. É um livro que mistura ficção científica e thriller polí­tico sem medo e acaba dando super certo. Aliás, muitos acreditam (e acho que possa ser verdade) que a ficção cientí­fica à a única literatura de “idéias”. Um romance de ficção científica muito realista e com uma análise profunda do futuro do anarquismo.

02. O Senhor dos Anéis [a trilogia] (J. R. R. Tolkien) Além de tudo o que se sabe sobre o livro e sobre o Sr. Tolkien, esse é um daqueles livros que eu quero ler e reler sempre que der e puder. Mágico, cheio de figuras míticas, fantásticas e canções belas. Sem contar o trabalho do cacete que deu pra criar um mundo novo, lí­nguas novas e tudo mais.

03. Admirável Mundo Novo (A. Huxley) Li na minha adolescência e foi um dos livros que mudaram minha vida (clichê, brega, mas verdade). Mudou minha visão de mundo, auxiliou nas minhas reflexões polí­ticas e sociais. Fez-me ver o humano diferente, sem máscaras. Um clá¡ssico que vale muito a pena ler (optei por esse em detrimento de 1984 do Orwell por motivos indecifráveis, pois ambos tiveram papéis semelhantes na minha adolescência).

04. O lobo, o bosque e o homem novo (Senel Paz) Indicado por uma pessoa muito especial, ess foi um livro que devorei! Cenário: Cuba; personagens: homossexuais cristãos; argumento: tensão entre eles e o regime. Virou filme e tudo ( o filme é uma obra de arte). Pouco mais de cem páginas que me deixaram com o coração na mão, um nó na garganta e um grito encurralado.

05. Heliogabalo ou o Anarquista Coroado (Antonin Artaud) Um livro que me chegou muito despretensiosamente às mãos, no entanto se tornou uma espécie de í­cone anarquista para mim. Artaud põe sua alma, seu sangue, sua carne, sua crueldade, seu humano em tudo que escreve, seja teatro, literatura ou teoria e isso me atrai muito.

Depois de cumprida a árdua tarefa, cabe agora repassar esta meme (ainda não sabe o que é? Ok, leia aqui) e toda a responsabilidade que ela carrega para mais cinco pessoas. Os escolhidos então: Bi (para atualizar o blog), Juliane (para ver se ela cria vergonha na cara e atualiza), Vertov (para conhecer um pouco mais seu gosto literário), Cí­ntia (porque alguém que escreve tão bem deve ler bem) e João (porque ele já me indicou muitos livros bons).