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setembro 2006

Posts em setembro 2006.

Eu sou gaúcho…

Nos festejos da Semana Farroupilha, o que poderia ser de fato um orgulho para todos os gaúchos e gaúchas torna-se uma vergonha. Alguns grupos tradicionalistas evidenciam muito mais seus cavalos e apetrechos de guerra do que os valores e os bons costumes do nosso povo. Destacam a valentia e o machismo, como quem precisa disso para ser homem. Cultuam um espírito de violência com o pretexto de cuidar de suas estancias e fazendas. E assim apenas maltratam a querência que não deveria ter dono nem cercas, para que todos pudessem ter o churrasco e o mate de cada dia. Fazem um alvoroço contra os sem terra, esquecendo as lutas do passado e o espírito de Sepé Tiaraju que ainda hoje grita em favor dos pobres da terra. Como falar de liberdade, igualdade e humanidade sem repartir a terra, vivendo um modo de vida onde um é o patrão e os outros são pobres peões sem eira, nem beira?

E para aumentar a vergonha, vemos o evento histórico da Revolução Farroupilha ser usado politicamente por Rigotto, um governo medíocre que desmontou nossa Universidade pública estadual e não fez nada que pudesse melhorar a vida do povo riograndense. E agora, inventou a campanha do “Orgulho Gaúcho” como uma forma de usar dinheiro público para fazer propaganda de um governo de “faz de conta”, uma administração de fachada e fortalecer a ideologia dos poderosos. Também aproveitam o momento de crise política nacional para resgatar a saudade de um velho caudilhismo, e quem sabe promover figuras políticas que até hoje não puderam ter nenhuma expressão através do trabalho. Por tudo isso, é preciso dizer que temos que repensar nosso jeito de ser gaúcho, ver o que realmente dever ser motivo de orgulho para não nos envergonharmos mais ainda.

No caso da identidade gaúcha, podemos assistir a uma determinada produção de sentidos que obtém um espaço privilegiado na constituição do campo de significação do que “é ser gaúcho”. Pode-se falar na predominância da representação do gaúcho do pampa, do meio rural, corajoso e destemido. São elementos que fazem parte do “mito do gaúcho”, o qual, engendrou um tipo, uma personalidade, que passou a identificar idealmente o gaúcho e impor-se como padrão de comportamento. É importante ressaltar aqui o papel que tem o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), criado em 1966, no sentido de ser um aglutinador destes significados presentes no chamado mito do gaúcho. O MTG coordena as ações dos Centros de Tradições Gaúchas (CTG) a ele filiados e demais entidades do gênero, realizam anualmente o Congresso Tradicionalista, coordena e dá assessoria a eventos como rodeios, festas campeiras, festivais nativistas, concursos de prendas e artísticos.

A preocupação do MTG para que as crianças aprendam, desde cedo, a maneira como se tornar gaúchos e gaúchas é latente. Barbosa Lessa, no primeiro congresso do MTG, realizado em Santa Maria no ano de 1954, defendeu a tese “O Sentido e o Valor do Tradicionalismo”, na qual aparecem as duas grandes questões do Tradicionalismo. Ao lado da assistência a ser dada ao homem do campo, a grande questão é a atenção a ser dada às novas gerações, pois, segundo o seu autor, o Tradicionalismo deve “operar com intensidade no setor infantil ou educacional, para que o movimento tradicionalista não desapareça com a nossa geração.

É clara a preocupação com a renovação do Movimento, com a construção de novos gauchinhos e prendinhas. Dessa forma, as crianças aprendem, desde cedo como “ser” gaúcho ou gaúcha.  O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), expande e espelha o estereótipo do gaúcho,

O mito do gaúcho é desenvolvido com os valores da oligarquia rural e de setores industriais urbanos. Criam-se, então, heróis ordenados a partir do ideal positivista, ligando o passado com o presente, na estrutura capitalista das forças econômicas e folclóricas e, como produto cultural, o espelho dos estereótipos a partir da raiz mitológica histórica.

Assim, o gaúcho domina o cavalo, o laço, as boleadeiras, tem uma fala (linguajar campeiro) peculiar, misturando a língua portuguesa com a influência castelhana, com vocábulos herdados dos índios, dos imigrantes. A partir do mito histórico, tem-se o estereótipo do gaúcho no seu jeito de ser e de se portar. O ser rio-grandense é uma mescla de várias influências étnicas: índios (caigangues, charruas, minuanos, guaranis – Sepé Tiaraju, “o centauro dos pampas”: mito e lenda), portugueses, açorianos, alemães, italianos: há uma miscigenação na formação cultural e na integralização, formando a brasilidade na eliminação das fronteiras, através de novas culturas unidas às suas raízes históricas e tradicionais.

O termo gaúcho vem de, entre muitos outros, chauch, chaucho, guacho, gaudeo, gauche. Os capitães-generais, as autoridades e os proprietários viam o gaúcho como ladrão; os comandantes das tropas, como isca para os inimigos; nas guerras de independências, como lanceiro, miliciano; para o homem da cidade, ele é o peão de estância; para o poeta, o bom ginete, o monarca… Há em tudo isso um esquema comportamental, um estereótipo.

O gaúcho possui elevada auto-estima, orgulho de sua terra e sua gente, um desejo de realidade positiva, espelha-se mais no passado, no ambiente rural e nas percepções históricas. Isso, no entanto, pode ser falso, uma cegueira deliberada para seguir adiante; também assume uma posição de marginalização como uma dupla consciência – o orgulho de ser gaúcho e de ter um passado heróico e a consciência de que o presente não possibilita mais a nostalgia.

Quero avisar que a tripulação está com fome!

Nessas últimas semanas muitas coisas aconteceram na vidinha desta que vos escreve sempre e tem muito prazer em fazê-lo. Buenas, sem rodeios quero avisar que muitas novidades estão por vir, tanto nesse domínio, que está próximo de expirar, e certamente renovarei, quanto no meu dia-a-dia. Os proóximos dias serão meio turbulentos, pois estou prestes a mudar de casa e tenho muitos trabalhos e duas provas terríveis na próxima semana. Aguarde e confie!

Nova Página da FAG na rede

www.vermelhoenegro.org/fag é o endereço eletrônico da FAG na rede de computadores.

A nova página da FAG veiculará com periodicidade notí­cias, debates e opiniões em distintas seções que pretendem dar conta de nossa específica atividade polí­tica. As conjunturas que nos tocam no paí­s e no mundo, o nível de lutas no campo sindical e popular que participam, como vai se gestando o anarquismo organizado por esses pagos, entre outros temas, terão expressão certa neste veículo.

Filmes da temporada internet out

Buenas, como estou sem a maldita da internet em casa, me sobrou tempo pra ver filmes, muitos filmes. E isso foi maravilhoso porque eu adoro cinema e pude colocar em dia algumas pendências… Então lá vai a lista:

A Era do Gelo 2, A Névoa, Damien – A Profecia II, A Profecia III, Alexandre, Alta Fidelidade, Basquiat – Traços de uma Vida, Camisa de Força, E La Nave Vá, Melhor é Impossível, Plano de Vôo, Pollock, Ray, Será que ele é?, Um Sonho de Liberdade, Venom.

Para repensar o 7 de Setembro

Todos os anos, no dia 7 de setembro, o Brasil comemora o seu “Dia da Independência”. Nas escolas os professores incentivam as crianças a usarem adereços,   chapéus e espadas de papel com fitas adesivas e bandeiras verde-amarelas que lembram tal acontecimento. Para acabar com essa data de “orgulho nacional”, bastaria mencionar, de início, que a grande maioria da população ficou excluída historicamente de todo o processo de emancipação política.

Os portugueses haviam feito a sua revolução liberal, implementando a Regência de Cortes Constituintes. Porém, o conteúdo liberativo tornou-se conservador, uma vez adotadas as medidas recolonizadoras em relação ao Brasil. Houve uma reação das classes dominantes, constituindo-se no “partido brasileiro” que iria defender a permanência de D. Pedro em terras tupiniquins, acarretando o “Dia do Fico”. O príncipe, manobrado pela elite nacional, entregou a Pasta do Reino para José Bonifácio (representante da aristocracia rural). Criou-se, então, o ministério brasileiro. O país já não obedecia às Cortes, mesmo sem o famoso “grito”. O caráter dos decretos ministeriais era claramente anti-democrático; reservava a participação política – o voto – às classes abastadas. Todavia, dentro dessas classes persistiam divergências relevantes: a burguesia colonialista portuguesa defendia a recolonização; a aristocracia rural do Norte e Nordeste queria o federalismo radical (separatismo); a do Centro-Sul zelava pela unidade territorial e preservação da ordem social; e as camadas populares urbanas buscavam reformas socio-estruturais. Os “sulistas” venceram.

Todos eles, com poucas exceções, ignoravam a questão dos fundamentos escravistas da sociedade brasileira. Seus privilégios estavam acima de tudo. Os homens livres não-proprietários também permaneceram nulos no processo de independência. Retomando: estava o príncipe às margens do Ipiranga… Após “responder a um chamado da natureza” (suposta diarréia), ele leu as cartas a ele endereçadas – ainda abotoando o uniforme – e proferiu o célebre: “Independência ou morte!”. Mais tarde viria a ser o imperador.

A população brasileira, inerte às manobras políticas, continuou pobre, escravizada, endividada, alienada, sujeita aos mandos e desmandos da monarquia de D. Pedro e, posteriormente, de muitos outros governos e regimes. Naquele instante o trunfo foi da união do conservadorismo aristocrata rural com o absolutismo do príncipe. Até hoje, nos latifúndios e nas fábricas, os trabalhadores ainda não escutaram o grito do Ipiranga. Talvez um dia eles mesmos irão berrar (alto!), e a independência passará a ser algo mais que “um voto nas eleições” ou um feriado na “semana da pátria”.

O governo Lula se apropriou da “maior festa” cívico-militar do País, o desfile de Sete de Setembro. A idéia é retirar ou pelo menos reduzir substancialmente o caráter militar da cerimônia para transformá-la num “espetáculo cívico”, em Brasília, com a exibição até de produtos da indústria nacional, para “levantar” a auto-estima da população.

A nominal independência política do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, não significou a independência do povo brasileiro. Pelo menos para a maior parte dele.A elite econômica da época acabou criando um liberalismo sui generis no Brasil que visava à garantia de seus principais interesses: a manutenção das relações escravistas, a concentração da propriedade da terra e a consolidação da unidade imperial. A Constituição de 1824 fundou um estado juridicamente desigual ao garantir direitos individuais à elite branca e tolerar a escravidão dos negros.

É este medo do negro, do pobre, da rebelião que aflige o inconsciente coletivo da elite brasileira até os dias de hoje. Os quilombos converteram-se em favelas; os insurgentes em traficantes de drogas; a criminalização do negro em criminalização do pobre. E a guerra continua. O medo continua.

No Brasil do medo, os mass media noticiam: “Mendigo é encontrado morto na rua”, “Traficante é morto pela polícia”, “Menor mata adolescente para roubar um boné”. Tal como escravos, não são homens e mulheres, mas coisas que morrem e, muitas vezes, matam para roubar. Suas mortes representam menos para a nossa sociedade que a morte de um escravo no século XIX. Eles não têm donos.

A reação natural ao medo é a guerra ao inimigo, pois somente sua exclusão – sua morte – trará a paz. No dilema entre a independência ou morte, a elite brasileira optou por sua independência à custa da morte das massas.

A solução repressiva, no entanto, gera uma nova dependência das elites: a dependência do seu próprio medo. Os independentes estão presos em suas casas muradas, em seus carros blindados e em seus shopping centers. Não há independência unilateral.

Para que Portugal reconhecesse sua independência política, o Brasil concordou em pagar-lhe 2 milhões de libras como compensação pela perda da antiga colônia. Para que o Brasil se reconheça como independente, as elites econômicas terão que pagar às massas seus direitos à educação, saúde, trabalho, moradia e tantos outros garantidos na Constituição da República de 1988. A elite brasileira só proclamará a independência de seus medos, quando indenizar as massas pela miséria, pela exploração e pelas mortes causadas.

O dilema da “independência ou morte” só se resolverá quando a independência de uns não estiver mais condicionada à morte dos demais. Só assim os pobres se libertarão de seus cárceres e os ricos de seus medos.

No meu entender, adiamos mais uma vez a possibilidade de legitimar os festejos de sete de setembro e realizar de fato a nossa independência. A resolução da crise que estamos vivendo vai apontar o tamanho deste adiamento. Cabe desconsiderar as imagens e evitar o comportamento hipnótico.

Divulgação importante!

Mostra “Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem”

O cartaz pode e deve ser reproduzido e espalhado pelas cidades!A partir de 31 de agosto a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo estará apresentando a Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem que consta de encenações teatrais criadas no último ano nas oficinas coordenadas pelos atuadores da Tribo. É ma mostra do processo pedagógico colocado em prática pela Terreira. A Mostra acontecerá no espaço Teatro Elis Regina da Usina do Gasômetro, com entrada franca.

De 31 de agosto a 29 de setembro, quintas e sextas-feiras, às 20 horas, será encenado o Exercício Cênico: ESTADO DE SÍTIO, adaptação livre da peça de Albert Camus, numa montagem cênica da Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo; em outubro e novembro será apresentado A Mais-Valia Vai Acabar Seu Edgar, baseada no texto de Oduvaldo Vianna Filho, na encenação do grupo Trilho, da Oficina de Teatro do Bairro Humaitá e em dezembro acontece A História da Cobra Grande, baseado no texto de Carlos Carvalho, com a Oficina de Teatro do Bairro Restinga, e a Última Instância de Carlos Queiroz  Telles, com a Oficina da Vila Pinto (bairro Bom Jesus).

Com uma experiência desenvolvida há vinte e dois anos com Oficinas Populares de Teatro, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz propõe através dessa mostra o debate sobre a formação do ator em seus aspectos éticos e estéticos. O Ói Nóis, que constituiu em 2000 a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo, acredita na importância da função social do artista,que além do compromisso com os palcos ele tem um compromisso como cidadão.