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julho 2007

Posts em julho 2007.

A Casa

Passeando pelas ruas de Porto Alegre, as mesmas ruas de sempre. Vento no rosto, conversas gostosas, Gasômetro, Guaí­ba (o lago), pôr-do-sol, vermelho. Subindo a ladeira e chegando no casarão em reforma. Aguarda ansiosa que a porta se abra. Multidão de faces desconhecidas, olhares cúmplices. A porta finalmente abre. Um novo mundo aguarda. Escuro corredor, a multidão a segue.

Chega na sala escura, de tijolos à mostra, lampião aceso, cadeiras ao redor e uma pessoa, uma cadeira, no centro. Sentada, olhar fixo. É Bernarda Alba, reconhece de primeira. Procura um lugar aconchegante na arena negra com portas e janelas brancas, abertas. Contraste. Olha ao redor, presta atenção em cada tijolo, em cada madeira, em cada lampião, e em Bernarda, em seu olhar, fixo, sempre, com uma bengala opressora nas mãos. Todos sentados. Bernarda ainda ali, com o olhar fixo.

Os primeiros acordes começam a soar. E ela ali, com o olhar fixo. Quatro saí­das, quatro fantasmas. Não, são cinco, cinco fantasmas. Elas surgem como fantasmas de si mesmas. Adentram a sala escura ao som do mais melancólico violão espanhol. Cruzam-se, não se olham. E Bernarda ali. Sentada, olhar fixo. Param. Todas. A música soa mais forte, mais no fundo da alma de cada um. De cada uma. Do teto descem negras vestes. Pendem na frente de seus fantasmas. É o luto. Pegam os vestidos, e revelam uma cruz. Uma cruz para cada fantasma. As meninas fantasmas deixam o branco pra traz. Agora estão negras, negras vestes. Bernarda, em seu primeiro gesto levanta e dá os primeiros passos. Desafia, com seu sapateado àquelas meninas. As janelas são fechadas, lacradas. É o luto.

Cada uma daquelas meninas fantasmas com seus medos, anseios e feminilidades reprimidas pelo luto de Bernarda. Suas vontades, das mais infantis às mais lascivas foram proibidas. Desejos presos nos corpos alvos. Como elas: presas na casa. Um espetáculo acontece frente aos olhos de todos. Dança, paixão, melancolia e os acordes espanhóis. Bernarda vigia, pune, cada uma das meninas fantasmas estão sob o olhar fixo de Bernarda, mesmo quando ela não está na sala. Uma delas se deixa entregar ao desespero e à paixão. Abre as janelas outrora lacradas, deixa entrar um homem, o homem. Entrega-se. Todos perplexos. Bernarda vê. Reprime.

Somos todos convidados a seguir, pelo corredor escuro, vendo os martírios, os carrascos, os penitentes nas mentes labirínticas dessas meninas mulheres fantasmas. Forte, sangrento, furioso, enegrecido pela dor de mais uma perda. Foi assim que Garcí­a Lorca nos fez ver a dor da guerra, da ditadura, do enclausuramento.

Luz, aplausos, agradecimentos. Termina um espetáculo. A Casa – dança flamenca-teatro. Prorrogado por mais uma semana. Garcí­a Lorca revisitado pelo sentimento e pela força do flamenco. Vale muito a pena.

O Cinema Está de Luto

É com grande pesar que venho até aqui escrever sobre isso, hoje de manhã chegou até mim a notí­cia de que um dos maiores cineastas de todos os tempos morreu. Ingmar Bergman, 89 anos, faleceu de forma “tranqüila e suave”, segundo Eva Bergman, que não informou nem a causa nem o momento exato do falecimento. Bergman deixou muitos fãs e um conjunto de obras preciosas. Ao longo da carreira, ele realizou 54 filmes, 126 produções teatrais e 39 peças de rádio, além de programas para TV. Suas obras-primas freqüentemente lidavam com a confusão sexual, a solidão e a vã busca pelo sentido da vida, temas que muitos atribuí­am a uma infância traumática, quando ele era agredido pelo pai. O filme dele que mais me marcou foi o clássico “O Sétimo Selo” todas as cenas eram obras únicas, lindas, perfeitas, cortantes. O jogo de xadrez do cavaleiro que busca encontrar-se com Deus contra a Morte. A dança da Morte na colina, carregando suas vítimas. Atormentado por seus medos, traumas da sua infância doentia e pela vida pessoal bastante conturbada, Bergman traduziu tudo isso para o cinema e fez com que a Suécia fosse conhecida pela melancolia e pelo cenário cinza e branco do frio. Ele já estava aposentado desde a década de oitenta e morava na Ilha Faro (das ovelhas) onde filmou algumas de suas obras. Seus filmes deixam marcas em todos que assistem, se deixam envolver pela sua sutileza, pelo seu universo. A cada filme visto é proporcionado ao expectador um momento de mergulho interno, de reflexão, raro na produção atual. Derramo lágrimas de emoção, de compaixão, de melancolia, de sangue a cada cena de seus filmes. Com Bergman, cinema era sempre arte. Vale a pena ler sobre sua vida e descobrir as nuances e as verdades de seu trabalho. O cinema está de luto, perdeu um de seus maiores nomes. Ficamos órfãos.

Exercício: Conversas.

Os quatro elementos convidados (escolhidos) para esta “œconversa” constitui-se de dois artistas convidados para a 6ª Bienal do Mercosul, uma artista referência para a História da Arte na América Latina e o trabalho que desenvolvo com arqueologia dos caçaadores coletores do Rio Grande do Sul.

Francisco Matto, que participará da Mostra Monográfica nesta Bienal constitui seu trabalho por uma fusão entre a arte das tradições pré-colombianas e a abstração geométrica. Nascido em Montevidéu, Uruguai teve problemas com sua proposta, pois no Uruguai não há uma cultura pré-colombiana como no Peru, Bolí­via ou México, que constitua em grandes arquiteturas ou em sociedades complexas. Pode se dizer então que sua obra é produto de uma reflexão para além da sua realidade local. Combinando a tradição de outras regiões com modernidade nos leva a questionar o significado da palavra e do conjunto de elementos que compõe o conceito é “tradição“.

Daniel Bozhkov é natural da Bulgária, vive e trabalha em Nova York nos Estados Unidos. Também convidado a participar nesta Bienal do Mercosul, porém na Mostra Três Fronteiras, realiza um trabalho voltado para a produção artesanal e a fronteira que existe entre ela, seu consumo e seu consumidor. Mais especificamente na sua obra em processo onde ele busca o aprendizado das esculturas de madeiras produzidas pelo í­ndio Guarani como pedido de desculpas ao animal caçado e tão comumente vistas à venda nas ruas de Porto Alegre.

Frida Kahlo é o terceiro elemento, figura referencial quando se fala em arte na América Latina. Mexicana, ela mescla elementos das tradições pré-colombianas mexicanas com a revolução, com o comunismo e com a arte popular mexicana em sua obra e em sua própria vida. Frida era uma pintora autodidata, que amava a arte, o México e o comunismo.

O quarto elemento, por fim, compreende então o trabalho arqueológico. O trabalho consiste em recuperar os elementos pré-históricos dos caçadores coletores do Rio Grande do Sul a fim de trazer a dinâmica do passado à tona. Baseado na etnoarqueologia como referencial teórico procuro compreender os aspectos dos contextos arqueológicos que geram a variabilidade lí­tica relacionada às diversas formas de apropriação do espaço em âmbito regional.

Esses quatro membros conversam não geograficamente, pois cada um deles está localizado em espaços diferentes: Bulgária, México, Uruguai e Brasil. Seu diálogo compõe a tradição como principal elemento integrador. Discutir questões regionais, locais e também questões para além do local (globais) como parte da formação de um grupo ou indiví­duo. Do papel desses artefatos tradicionais, buscando no passado e na etnografia das sociedades tradicionais elementos constituidores de suas obras.

Que se inicie a conversa…

A primeira a gente nunca esquece.

Semana passada eu recebi minha primeira meme (Não sabe o que é? Joga no Google) da Carla. Ela me passou via comentário e eu aceitei o desafio. Mas compartilho com ela: Só cinco? Ela me passou a responsabilidade de listar os meus 5 melhores livros de todos os tempos e é lógico que ficarão muitas coisas de fora. Optei apenas por literatura. Optei, não pelos melhores, mas pelos que fizeram parte de bons momentos. Então vamos lá:

01. Fim: Notas sobre os Últimos dias do Império Americano (G. A. Matiasz) Estou a tempos pra escrever uma resenha deste livro e por motivos diversos acabo deixando para depois. É um livro que mistura ficção científica e thriller polí­tico sem medo e acaba dando super certo. Aliás, muitos acreditam (e acho que possa ser verdade) que a ficção cientí­fica à a única literatura de “idéias”. Um romance de ficção científica muito realista e com uma análise profunda do futuro do anarquismo.

02. O Senhor dos Anéis [a trilogia] (J. R. R. Tolkien) Além de tudo o que se sabe sobre o livro e sobre o Sr. Tolkien, esse é um daqueles livros que eu quero ler e reler sempre que der e puder. Mágico, cheio de figuras míticas, fantásticas e canções belas. Sem contar o trabalho do cacete que deu pra criar um mundo novo, lí­nguas novas e tudo mais.

03. Admirável Mundo Novo (A. Huxley) Li na minha adolescência e foi um dos livros que mudaram minha vida (clichê, brega, mas verdade). Mudou minha visão de mundo, auxiliou nas minhas reflexões polí­ticas e sociais. Fez-me ver o humano diferente, sem máscaras. Um clá¡ssico que vale muito a pena ler (optei por esse em detrimento de 1984 do Orwell por motivos indecifráveis, pois ambos tiveram papéis semelhantes na minha adolescência).

04. O lobo, o bosque e o homem novo (Senel Paz) Indicado por uma pessoa muito especial, ess foi um livro que devorei! Cenário: Cuba; personagens: homossexuais cristãos; argumento: tensão entre eles e o regime. Virou filme e tudo ( o filme é uma obra de arte). Pouco mais de cem páginas que me deixaram com o coração na mão, um nó na garganta e um grito encurralado.

05. Heliogabalo ou o Anarquista Coroado (Antonin Artaud) Um livro que me chegou muito despretensiosamente às mãos, no entanto se tornou uma espécie de í­cone anarquista para mim. Artaud põe sua alma, seu sangue, sua carne, sua crueldade, seu humano em tudo que escreve, seja teatro, literatura ou teoria e isso me atrai muito.

Depois de cumprida a árdua tarefa, cabe agora repassar esta meme (ainda não sabe o que é? Ok, leia aqui) e toda a responsabilidade que ela carrega para mais cinco pessoas. Os escolhidos então: Bi (para atualizar o blog), Juliane (para ver se ela cria vergonha na cara e atualiza), Vertov (para conhecer um pouco mais seu gosto literário), Cí­ntia (porque alguém que escreve tão bem deve ler bem) e João (porque ele já me indicou muitos livros bons).

Sobre o trabalho de Mediação na 6ª Bienal do Mercosul

O que é ser mediador? Bom, ser mediador é ser, antes de tudo um intermediáriorio. Aquele que está entre duas partes. O mediador aprecia, questiona, mas também é questionado. Incentivando o espectador, considerando-o como ser criativo e não passivo. O apreciador, o público em geral não é passivo, eles não querem alguém que entenda tudo de arte para lhe dar uma aula, eles querem sim é ter um espaço para exercer sua criatividade no diálogo com a obra, com a exposição. Portanto, o mediador é alguém que facilita, impulsiona diálogos, produz tensões (no bom sentido) entre as partes. Segundo o dicionário Aurelio o mediador é aquele que intervem, uma espécie de érbitro. Mediar é o ato de intervir entre essas partes. Se mediar é dividir ao meio, o mediador é o responsável pela soma das duas metades. Intermediar um contato entre essas duas metades, a obra e o espectador, ou público, como desejar chamar quem está ali para apreciar. Não é, com certeza, alguém que monitora o contato entre as duas metades. É, acima de tudo, o responsável pelo bem estar do contato.

Curtindo nas férias.

Curtindo a festa adoidada!

Depois das pirraças, intrigas orkutianas promovidas por certas cabecinhas pequenas e infantis, o retorno é triunfante. A UNI$UINO$ continua a mesma, mas com evento e pessoas do Brasil todo ficou “habitável” (referindo-se ao Simpósio da ANPUH). Matando a saudade de alguns amigos de verdade (da UNI$UINO$) e econtrando novos amigos (da UFRGS). Uma farra e tanto, muito vinho, cerveja e cachaça com velhos e novos amigos. Conhecendo pessoas de todo o Brasil. Ouvindo coisas inteligentes durante o dia e coisas bizarras à  noite.