o templo do corpo

O corpo é um templo. O toque, a carícia só ocorre com consentimento. É nele que moram nossas fraquezas, nossos desejos, nossos pensamentos. Quando o nosso corpo é violado nos sentimos incapazes. Todas as certezas se vão juntamente com a proteção que sempre pensamos ter. É como se de repente a bolha de vidro que protege o corpo do mundo se quebrasse, ficássemos expostos, sem qualquer reação. A violência, por menor que seja (se é que pode se estabelecer graus à  violência), destrói aquilo que chamamos de dignidade. Diminuí­dos perante o mundo, perante nós mesmo. É só assim que percebemos o quão pequenos somos, o quão frágil é nossa existência. O quão insignficantes somos para o mundo, como individualmente perecemos com medo, disfarçando nossos temores, escondidos, todos eles, no nosso templo particular. Um templo, lugar sagrado para nós mesmos, de repende violado, maculado, por vezes mutilando nossa existência.

Barbaridades da Semana

A semana que passou foi marcada por uma série de absurdos e bizarrices que custo a acreditar. Algumas delas:

  1. Renan absolvido era mesmo de se esperar, afinal de contas uma votação secreta, onde até a Ata teve acesso proibido por, pelo menos, os próximos vinte anos. Renan tem seus podres (e bota podre nisso), no entanto ele usou da mais famosa e ardilosa arma dos bandidos corruptos, a chantagem. Todos ali, sem excessão, têm o nome tão sujo que o não votar pela absolvição acarretaria na transformação de Renan em um novo Roberto Jeferson. E dá-lhe Brasil.
  2. Declaração de Lula acerca da indignação do povo pela absolvição acima referida. É muita cara de pau. Aliás, todas as declarações do Senhor Presidente soam como insulto ao povo brasileiro, principalmente às classes mais baixas, oprimidas pela sua política. O homem teve a coragem de falar que ‘Precisamos nos habituar a acatar o resultado das instituições’, vê se não dá vontade de chorar e depois partir pra porrada, ou vice-versa.
  3. Nasi sai do Ira!. E o Ira! continua sem ele. Sem comentários. Não curto a posição polí­tica do Nasi, mas acho que o Ira! tinha uma personalidade muito forte com Wolwerine Valadão à frente dos vocais. Mesmo que o meu preferido seja o Scandurra.

Bizarro!

Teatro do Chat

Na sexta-feira 07 de setembro de 2007, o Maurício Corbalán (um dos arquitetos do coletivo m7red, autor da obra Teatro do Chat) conduziu uma espécie de oficina/mini-curso sobre o Teatro do Chat (integrante da mostra Zona Franca da 6ª Bienal do Mercosul). A oficina iniciou com um histórico da proposta e caminhou naturalmente para as questões tratadas nas “edições anteriores”. O Teatro do Chat é uma proposta de trocas de idéias virtual, uma arena pública de discussão acerca de temáticas urbanas. O elemento virtual é de extrema importância, nas duas primeiras vezes que a proposta foi realizada ela ocorreu virtualmente. Na primeira vez, em Amsterdã, a conversa girou em torno da questão da imigração islâmica para a cidade. Já na segunda edição, o cenário era Buenos Aires e a discussão girava em torno dos Piqueteiros e também do Porto da cidade. Em ambas as discussões, as pessoas envolvidas no debate virtual assumiam papéis pré-estabelecidos, baseados nos protagonistas dos problemas abordados.

O objetivo é pensar o espaço público e trocar cenários. E o novo cenário é, então, Porto Alegre e a discussão agora envolvem o centro da cidade e os projetos da Prefeitura de POA. Dentre os projetos da Prefeitura que serão alvo de discussões estão: os camelôs do centro e o Camelódromo, a Revitalização do Centro, os Portais da Cidade e a presença dos Catadores de Material Reciclável nas ruas. O processo que resultou no trabalho presente na Bienal foi construído coletivamente, diversas conversas a respeito dessas temáticas foram realizadas.

A partir da idéia de que os problemas locais são afetados também pelos problemas globais o m7red pensou em dividir o Teatro do Chat em quatro cenas distintas, independentes espacial e temporalmente para o cenário Porto Alegre. Nessas cenas as pessoas foram ou serão convidadas a saírem de suas confortáveis posições. Como em uma peça teatral, onde o ator interpreta um personagem (que não é seu igual, com idéias e opiniões diferentes das suas). Nesse Chat a pessoa assume as posições e argumentos de um dos seis personagens com distintas características e posições a respeito do tema que serão desvendadas anteriormente com o auxílio de vídeos tutoriais que se encontram ao lado da sala de conferências e de uma ficha dos mesmos.

Sem dispor de muita técnica teatral, essa encenação virtual ocorre, de acordo com a cena correspondente, em diferentes locais da cidade. A primeira cena ocorreu virtualmente no Boteco Odeon e se encontraram o personagem camelô e o intelectual e conversaram argumentos contrários às propostas da Prefeitura. A segunda cena se passou na própria Prefeitura Municipal com seu personagem representante e mais o personagem advogado, ambos a favor da proposta da mesma. A terceira cena, por sua vez, aconteceu no Cais do Porto com a fictícia representante do Fórum Social Mundial (FSM) e e um agente imobiliário também inventado discutindo a possibilidade ou não do retorno do FSM para a cidade. A quarta cena ocorrerá no final da Bienal com a reunião de todos os personagens (fictícios, mas baseados em cargos e pessoas reais) para um chat no espaço construído no Cais para a 6ª Bienal. Esse encontro será também uma coletiva de imprensa.

Até lá, o espaço poderá ser utilizado com hora marcada para encenações onde os atores serão pessoas do público. Diferente de Amsterdã e Buenos Aires, na Bienal do Mercosul em Porto Alegre é a primeira vez que há um espaço físico para que as discussões ocorram. Os computadores dispostos e uma mesma sala de conferência e a discussão ocorre pelo famoso programa de bate-papo, o Skype (já logado com o personagem). Um computador principal é utilizado pelo coordenador da sessão e é dele que a projeção na parede é capturada.

O Teatro do Chat é um exercício de imaginação, onde é necessário pensar coletivamente, compreender o personagem compreender o cenário para se compreender as relações complexas ali tecidas e para compreender os problemas apresentados. Um exercício de como representar o papel do outro e aprender a enxergar os diferentes pontos de vista sem preconceito. Numa espécie de BRAINSTORM coletivo os argumentos são, mais do que para convencer o outro, provocar os “atores”. Tirar-lhes o chão, a base dos argmentos. Mais do que formar opiniões, o Teatro do Chat vai desconstruir consensos.

Tive a oportunidade de acompanhar, junto de outros mediadores o Maurício numa sessão do Chat. Incorporei o personagem do camelô. Ficamos algumas horas conversando virtualmente, mesmo que na mesma sala. Em uma espécie de RPG onde a política é um teatro e o virtual é um caminho possível o grupo m7red trouxe à Bienal uma proposta que, segundo eles, não é arte, mas se caracteriza pela reflexão de temas pulsantes do século XXI. Assim é a arte contemporânea, instigante, nos convida a pensar, indagar, dialogar.

A próxima parada deles é Hong Kong, é esperar pra ver.