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setembro 2008

Posts em setembro 2008.

A Narrativa do Romance Policial

Depois de escrever um pouco sobre o surgimento do Romance Policial, é hora de falar da forma que a narrativa assume. A narrativa policialesca diz respeito a uma inclinação humana já existente, e busca a mais completa verossimilhança com a realidade. Os aspectos poéticos são abandonados em prol do exercício da racionalidade. O leitor interage através do medo. E busca compreender crime e criminoso em conjunto com a figura do detetive, responsável pelo desenrolar da história. O detetive representa a polícia, e ele é o herói. Em contrapartida o criminoso assume um papel de aberração.

Com o romance policial de segunda geração há uma inversão do papel do detetive e do lugar do crime na sociedade. Se nos romances de primeira geração eles eram aberrações e não faziam parte da ordem social, nos romances escritos a partir das décadas de 1920 e 1930, eles passam a fazer parte de um esquema social que é por inteiro abominável. Ambos estão inseridos na urbe, mas é a com a hard-boiled novel que a cidade passa a ser retratada como verdadeiras ruínas modernas aprisionadas pelo senso de mercadoria e pela multidão. São nas grandes cidades que os grandes crimes aparecem. O terror agora passa a estar escondido em qualquer beco ou ruela. O criminoso pode estar em qualquer lugar, e a vítima pode ser qualquer um.

O detetive agora faz parte do submundo, mas ainda representa o herói, pois ele não se deixa contaminar por essa doença social em que a cidade está imersa. O gênero não se extinguiu, pelo contrário, ganha cada vez mais força expandindo seus braços para outras mídias. Um exemplo clássico são os seriados de televisão que surgem na década 1960 e perduram até hoje. O mesmo pode-se dizer acerca das metrópoles contemporâneas. Não é por acaso que as cidades de onde saem os novos autores da literatura policial (no caso do Brasil) são Rio de Janeiro e São Paulo, duas grandes metrópoles. Mas esse é um tema para outro texto. Quem sabe.

Um sentido para o dia de hoje

Aconteceu

Adriana Calcanhotto

Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor

Cavalo de Fogo

Que jovem de mais de 20 e poucos anos não tem um desenho animado dos anos 80 na memória e volta e meia começa a cantarolar as músicas e lembrar de falas de personagens que povoaram a imaginação e as brincadeiras de infância? Bom, eu tenho. E um desses desenhos é com certeza Cavalo de Fogo, produzido por Hanna-Barbera, estralando de setembro de 1986 a setembro de 1987, na CBS.

Como eu adorava ver as aventuras da Princesa Sara em Dar-Shan (um mundo de outra dimensão). E a música de abertura era deliciosa de ficar cantarolando por aí. E é claro que eu sempre errava a letra inteira, porque não consigo decorar letras de música.

Para acompanhar a abertura:

No meu sonho eu já vivi um lindo conto infantil
Tudo era magia
Era um mundo fora do meu
E ao chegar desse sonho acordei
Foi quando correndo eu vi
Um cavalo de fogo alí
Que tocou meu coração
Quando me disse então
Que um dia rainha eu seria
Se com a maldade pudesse acabar
No mundo dos sonhos pudesse chegar …

São tantas os desenhos animados que marcaram a minha infância (vivida em parte nos anos oitenta e em parte nos anos noventa), aos poucos coloco aqui no blog uma ou outra coisinha sobre eles.

ATENÇÃO AO SÁBADO de Clarice Lispector

Porque é sempre bom ler Clarice. Porque hoje é sábado. Porque existem desejos.

ATENÇÃO AO SÁBADO

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

Clarice Lispector (do livro “Para não Esquecer”)

E como Clarice é como uma droga pesada, que vicia e entorpece, vale a pena assistir uma entrevista visceral. É só ver no Youtube. Ela decidiu que deveria deixar um testemunho, foi até a Tv Cultura do RJ para falar, porque encasquetou que iria morrer. O que realmente aconteceu um mês depois, em Dezembro de 1977. E ela ainda fez a equipe assinar um documento que só permitiria a exibição pública da entrevista após sua morte. A entrevista é um depoimento de dentro da alma, da alma de Clarice.

Entrevista com Clarice Lispector em 1977 – Parte 1
Entrevista com Clarice Lispector em 1977 – Parte 2
Entrevista com Clarice Lispector em 1977 – Parte 3
Entrevista com Clarice Lispector em 1977 – Parte 4
Entrevista com Clarice Lispector em 1977 – Parte 5