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O Meme Literário de Um Mês 2011 – Dia 31

Qual o livro que você leu esse ano que mais gostou?
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A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

Nesse ano eu li muito livro bom. Fica difícil escolher um só. Mas como é preciso, vou ficar com um que devorei em poucos dias, que marcou o final de uma trilogia que eu simplesmente me apaixonei e com a personagem mais marcante do ano: A rainha do castelo de ar (Millennium #3), de Stieg Larsson. Uma narrativa clara, concisa, de tirar o fôlego e de uma evolução surpreendente, A Rainha do Castelo de Ar é o mais longo dos livros da Trilogia Millennium e pode até intimidar alguns leitores pelo tamanho, mas certamente conquistou minha admiração. Sua leitura despertou em mim, além de um sentimento agradável que se apoderou do meu ânimo ao ler um livro extraordinário, uma angustiosa e deliciosa expectativa sobre o que poderia acontecer. Cada palavra, cada frase, tinha um porquê e levava a um questionamento sobre os caminhos e decisões a serem tomados pelos personagens.

Para ver as respostas dos outros dias, clique aqui.

A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

A Rainha do Castelo de Ar, Stieg Larsson

Para dar continuidade à leitura da Trilogia Millennium, li o terceiro volume da série: A Rainha do Castelo de Ar. Mais uma vez as expectativas foram superadas.

Nesse livro Larsson narra os acontecimentos imediatamente posteriores ao final do segundo volume da trilogia. As primeiras 150 páginas possuem uma narrativa mais lenta em relação ao restante da série e do próprio livro em função exatamente da natureza dos acontecimentos. Lisbeth vai para o hospital e sofre algumas cirurgias, a mais complicada delas consistia em retirar um projétil alojado em seu cérebro. A partir de então ela fica incomunicável, detida na sala de recuperação pela polícia. As únicas pessoas com as quais ela tem contato são da equipe do hospital que são responsáveis pelo seu estado de saúde, sua advogada e a polícia.

Enquanto isso Mikael continua sua investigação paralela à da polícia para provar a inocência de Lisbeth. Na busca por informações ele próprio passa a ser alvo da organização secreta do governo a qual ele investiga e privou Salander de sua liberdade constitucional. Mais uma vez Larsson me surpreendeu com sua narrativa, o livro parecia um imã, pois não conseguia ficar longe dele até terminada a leitura. A parte final é ainda mais instigante e a narrativa é tão fluida que li muitas páginas tão rápido que quando vi já tinha terminado o livro.

O mistério em torno de Salander é revelado por completo, o que poderia fazer com que a personagem perdesse o encanto. Todavia, ocorre o contrário, fiquei ainda mais apaixonada por Lisbeth. É uma personagem tão interessante, complexa, admirável, forte e frágil ao mesmo tempo, anarquista e independente que faz ter vontade de mudar vários aspectos de nossas vidas. E não é apenas a dupla Mikael-Lisbeth que são personagens incríveis, cativantes e cheio de nuances. Muitos outros nos são apresentados ou retomados ao longo do livro.

Uma narrativa clara, concisa, de tirar o fôlego e de uma evolução surpreendente, A Rainha do Castelo de Ar é o mais longo dos livros da Trilogia Millennium e pode até intimidar alguns leitores pelo tamanho, mas certamente conquistou minha admiração. Sua leitura despertou em mim, além de um sentimento agradável que se apoderou do meu ânimo ao ler um livro extraordinário, uma angustiosa e deliciosa expectativa sobre o que poderia acontecer. Cada palavra, cada frase, tinha um porquê e levava a um questionamento sobre os caminhos e decisões a serem tomados pelos personagens.

Leia os textos para os dois primeiros volumes da Trilogia Millennium publicados aqui no blog:

  1. Os homens que não amavam as mulheres
  2. A menina que brincava com fogo

A Rainha do Castelo de Ar
Trilogia Millennium Volume 3
Autor: Stieg Larsson
Editora: Companhia das Letras
688 páginas
Skoob | Submarino

Rating: ★★★★★ 

A menina que brincava com fogo, Stieg Larsson

A menina que brincava com fogo, Stieg Larsson

Para dar continuidade à leitura da Trilogia Millennium, li o segundo livro da série: A menina que brincava com fogo. A expectativa era grande, tendo em vista o quanto gostei do primeiro livro. E eu gostei muito desse também.

Dois anos depois dos acontecimentos traumáticos narrados em Os Homens que não amavam as mulheres, a revista Millenium encontra um novo colaborador que está prester a publicar um artigo e um livro sobre o tráfico de mulheres. Esse colaborador e sua companheira pesquisam o tema há anos e procuram a revista para publicar e denunciar os envolvidos – que vão desde policias do serviço secreto sueco à jornalistas conhecidos.

Somos apresentados aos novos personagens na primeira parte do livro enquanto a rotina no exterior da protagonista Lisbeth Salander é narrada também. Muito embora Larsson demore bastante para engrenar o cenário no qual o desenrolar a história se passará (quase 200 páginas), essa primeira parte do livro é deliciosa e conseguiu me prender por horas a fio. E o cenário é bastante complicado. Dag Svenson e Mia Bergman são assassinados no apartamento em que moravam e a suspeita recai sobre Lisbeth. A situação para ela piora ainda mais quando seu tutor também é encontrado morto.

Mikail e Lisbeth não se viam desde os eventos na Ilha de Hedeby. Ele acredita na inocência da mulher que outrora salvou sua vida e resolve realizar uma investigação paralela ao cerco que a polícia montou para prendê-la. Acontece que Salander não é uma mulher fácil de ser localizada e é muito mais inteligente do que seus perseguidores.

Entretanto, uma das melhores coisas do primeiro livro se perde na narrativa: o mistério em torno de Salander. Todo o passado da heroína é desvendado, pois mesmo que Mikail acredite na inocência dela, Lisbeth está envolvida com tudo o que aconteceu. Mesmo que eu já soubesse o desfecho da história quando li (afinal, eu já tinha visto o filme, que é fantástico, por sinal) eu não contarei se ela é inocente ou não.

Mesmo que a vida de Salander seja destrinchada com as pesquisas que Mikail, a polícia e ela mesma fazem para desvendar o mistério dos assassinatos, a personagem desaparece da narrativa por um bom trecho na metade do livro. Esse sumiço compromete um pouco a história, afinal ela é a minha personagem preferida e eu fiquei o tempo todo muito curiosa para saber o que Lisbeth andava aprontado no seu esconderijo.

A citação que eu destaco do livro é a seguinte:

 Lisbeth Salander era a mulher que odiava os homens que não gostavam de mulheres. (p.560)

Apesar desses dois problemas (a enrolação inicial e o sumiço da protagonista – acompanhada do fim do mistério que a cercava) o livro é muito bom, me cativou desde o princípio e a melhor definição para minha leitura é o verbo devorar. Eu devorei as 608 páginas em três dias e com muita excitação.

A menina que brincava com fogo
Trilogia Millennium Volume 2
Autor: Stieg Larsson
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 608
Compre: Submarino

Rating: ★★★★★ 

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Stieg Larsson)

Os homens que não amavam as mulheres, Stieg Larsson

Os homens que não amavam mulheres é o primeiro volume da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larsson. O autor foi um jornalista e ativista político muito respeitado. Nasceu em 1954, em Skelleftehamn, na Suécia, trabalhou na agência de notícias TT, e à frente da revista Expo, fundada por ele, denunciou organizações neofascistas e racistas. É co-autor de Extremhögern, livro sobre a extrema direita em seu país. Morreu de infarto aos cinqüenta anos, em 2004 pouco depois de entregar para a editora os três volumes de sua trilogia. Acabou não conhecendo seu póstumo e estrondoso sucesso: um best seller em mais de 10 países (Suécia, Itália, Dinamarca, Alemanha, Noruega, França, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos).

No último dia de 2010 eu terminei de ler Os homens que não amavam mulheres, um romance policial e de mistério que lida com diversas facetas da sociedade contemporânea e explora o que de pior ela tenta esconder. Devorei as 522 páginas em pouco mais de três dias, e a gama de sentimentos que tive ao longo da leitura são indescritíveis. Protagonistas cativantes, dramas impensados, desfechos intrigantes e uma trama cheia de suspense e pistas que me deixaram ligada da primeira à última página. Há muito tempo que não lia um livro de mistério que me deixasse assim.

Millennium é o nome da revista que Mikael Blomkvist trabalha e está ameaçada depois que ele foi condenado por difamação ao escrever um artigo sobre um poderoso empresário. A complexa personalidade de escoteiro sexy inteligente do jornalista (uma espécie de alter ego do autor?) Mikael Blomkvist e a perturbada, rebelde e superdotada hacker Lisbeth Salander se cruzam na tentativa de resolver um desaparecimento ocorrido 40 anos antes em uma poderosa, porém decadente, famíla sueca. Mikael não imaginava o que esse trabalho lhe reservaria, Lisbeth tão pouco. Ambos tiveram sua integridade física comprometidas em algum momento do livro, mas não foi apenas as cenas fortes e violentas que uniram seres tão distintos entre si, algo mais fez com que se encontrassem, trabalhassem juntos e enfrentassem os perigos que remexer no passado pode representar.

O livro é fantástico, um dos melhores que já li em toda minha vida (e olha que não digo isso para qualquer livro), tem intrigas familiares, sexo, estupro, morte, perseguição, investigação, violação de privacidade, desaparecimento, assassinatos, violência, política e Lisbeth Salander.

Eu não posso dizer que não me identifiquei com Mikael (por sua integridade e posicionamento político), mas foi Lisbeth Salander quem me cativou. A personagem é um misto de fragilidade infantil coma força e a determinação de uma mulher que já sofreu muito (e continou sofrendo durante a narrativa). O que ela enfrentou não foi pouco, e é praticamente impossível não tomar partido a seu favor com tudo que Larsson lhe reservou em seu romance. Uma mulher para ser admirada. Corajosa, inteligente e independente. Longe de viver de acordo com os padrões impostos pela sociedade ela é contantemente julgada e vigiada, apemas três pessoas não o fazem: Holger Palgren, seu ex-tutor; Dragan Armanskij, seu patrão; e Mikael Blomkvist, seu amante e parceiro. Apesar de estimar cada um deles, não permitia que se aproximassem ou soubesse de seus sentimentos positivos em relação à elas, com excessão de Mikael Blomkvist.

A vivência política do autor certamente é um dos fatores para o realismo da obra ser tão vivo e intenso. Pode parecer ficção tudo o que ele narra, se eu apenas te contar aqui, mas lendo acreditamos vivamente em suas palavras. Ele escreve com autoridade de quem já estudou e escreveu sobre o assunto.

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Ficção de gênero em debate

Coleção Ficção de Polpa

Coleção Ficção de Polpa

Cheguei a pouco em casa, estava na Palavraria conferindo o debate O Público e a Crítica da Ficção de Gênero com Carlos André Moreira, Samir Machado de Machado e Antônio Xerxenesky. O evento ocorreu por ocasião do relançamento do primeiro volume da série literária Ficção de Polpa (Volume 1, Volume 2, Volume 3) da Não Editora – o primeiro volume já está na terceira edição!

Eu achei muito bacana, a discussão foi interessante e como intrometida que sou não poderia deixar passar a oportunidade de dar um pitaco sobre o assunto. Que fique bem claro, eu sou leitora de ficção científica, de horror, fantástica e policial se medo e nem vergonha de falar, mas pra ser entendedora do assunto ainda me falta muito. Então falei sob o ponto de vista histórico das obras que conheço (terreno mais sólido pra mim). Perguntei se os debatedores concordavam com a leitura que faço das obras, priorizando uma visão de crítica social e política do presente dos autores ao escreverem suas obras – mesmo que projetadas para futuros distantes, realidades paralelas etc, etc, etc. Só posso dizer que os três são muito bons falando e demonstram um nível invejável de conhecimento sobre o assunto.

Além de todo o conhecimento adquirido, de ter conhecido uma livraria hiper charmosa e acolhedora (com vários gatos utilizados na decoração, o que me cativou ainda mais) eu paguei um miquinho básico: banquei a tiete e fui falar com o Milton Ribeiro alegando ser tri fã do blog dele. Vê se eu posso com isso, fiquei morrendo de vergonha, mas o impulso foi maior que a prudência.

E é claro que eu adquiri os três volumes da coleção, pensei até em pegar autografo de alguns dos autores que estavam presentes, mas como moro longe, mas longe mesmo do centro de Porto Alegre, tive de me retirar. Mas os livros estão aqui, comigo, prontos para serem degustados, devorados.

A Narrativa do Romance Policial

Depois de escrever um pouco sobre o surgimento do Romance Policial, é hora de falar da forma que a narrativa assume. A narrativa policialesca diz respeito a uma inclinação humana já existente, e busca a mais completa verossimilhança com a realidade. Os aspectos poéticos são abandonados em prol do exercício da racionalidade. O leitor interage através do medo. E busca compreender crime e criminoso em conjunto com a figura do detetive, responsável pelo desenrolar da história. O detetive representa a polícia, e ele é o herói. Em contrapartida o criminoso assume um papel de aberração.

Com o romance policial de segunda geração há uma inversão do papel do detetive e do lugar do crime na sociedade. Se nos romances de primeira geração eles eram aberrações e não faziam parte da ordem social, nos romances escritos a partir das décadas de 1920 e 1930, eles passam a fazer parte de um esquema social que é por inteiro abominável. Ambos estão inseridos na urbe, mas é a com a hard-boiled novel que a cidade passa a ser retratada como verdadeiras ruínas modernas aprisionadas pelo senso de mercadoria e pela multidão. São nas grandes cidades que os grandes crimes aparecem. O terror agora passa a estar escondido em qualquer beco ou ruela. O criminoso pode estar em qualquer lugar, e a vítima pode ser qualquer um.

O detetive agora faz parte do submundo, mas ainda representa o herói, pois ele não se deixa contaminar por essa doença social em que a cidade está imersa. O gênero não se extinguiu, pelo contrário, ganha cada vez mais força expandindo seus braços para outras mídias. Um exemplo clássico são os seriados de televisão que surgem na década 1960 e perduram até hoje. O mesmo pode-se dizer acerca das metrópoles contemporâneas. Não é por acaso que as cidades de onde saem os novos autores da literatura policial (no caso do Brasil) são Rio de Janeiro e São Paulo, duas grandes metrópoles. Mas esse é um tema para outro texto. Quem sabe.

História, literatura e crime.

É sabido que a História hoje assume um papel diferente daquele que Aristóteles anunciava em sua Poética. Em nosso tempo existe um diálogo entre os diversos campos do saber. Chamamos esse diálogo de interdisciplinaridade. História e Literatura compartilham de longa data a narrativa e o contar, escrever e descrever, interpretar, reinterpretar, construir, reconstruir por meio da escrita. Determinados eventos “reais” ou “imaginários” são relatados como garantia de se perpetrarem através do tempo. Em especial, é claro aqueles considerados dignos de memória. As narrativas estão ligadas a uma dupla capacidade: cristalizar e ao mesmo tempo dar vida a determinadas idéias e sentimentos a serem compartilhados¹.

Ambas as disciplinas são formas de contar o “real”. E o fazem através de signos constituídos por palavras e imagens. As formas da narrativa literária já foram utilizadas pela História, mas é claro que ambas possuem métodos distintos, e seus objetivos são diferentes. Literatura não é História, e vice-versa. No entanto, o Historiador pode, em sua busca de conhecimento sobre o mundo do passado, resgatar certas sensibilidades e a maneira como o homem representava realidade e a si mesmo recorrendo ao texto literário. Nele está contido sentimentos, emoções, jeitos de falar e pensar o mundo, códigos de conduta, ações sociais e sensibilidades de outro tempo. Do tempo em que determinada narrativa fora escrita.

Um estilo de Literatura específico, o Romance Policial é “um objeto privilegiado para investigar as relações da literatura e da cultura com a vida urbana e com os tempos contemporâneos. Nessa modalidade de narrativa, talvez como em nenhum outro conjunto específico de formas literárias, a subjetividade problemática do homem e a feição fragmentária da urbe se encontram, se alimentam e se completam“.

Traços destes romances são frutos de determinadas maneiras de ver o crime, o criminoso e a polícia em seu tempo. Influenciados pelo cientificismo do século XIX e a cristalização do gênero no século XX, fez destes romances a expressão dos anseios e medos de uma época.

Quando Edgar Allan Poe escreve Assassinatos na Rua Morgue, ele inaugura o estilo.

1. NAXARA, Maria Regina Capelari. Historiadores e textos literários: alguns apontamentos. In: História: Questões & Debates, Curitiba, n. 44, p. 37-48, 2006. Editora UFPR.